Portais Temáticos

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Causos e Causos

Uma adaptação dos casos contados por Rolando Boldrin, em Contando Causos" da editora Nova Alexandria, 2001.
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GAÚCHO MACHÃO

Não gosto muito de contar causo de gaúcho. Tenho admiração pelos fronteiriços. Mas tem um causo de gaúcho que, de quebra, tem um mineirinho pra desanuviar... A história se passou assim: um gauchão, daqueles bem tradicionais, vestido a caráter – pilchado com bombachas, chapéu quebrado na testa, faca na cintura –, entra num empório. Dá um tapa forte no balcão, chamando o vendeiro.
Gaúcho – Me dá uma cana! Dupla, que sou gaúcho. E na minha terra só tem macho! Todos no empório olham para ele, inclusive um mineirinho raquítico que bebericava sossegado a sua pinguinha. E o pior da história – ou o melhor – é que o gaúcho disse isso olhando diretamente para o mineirinho.
O vendeiro serve o gaúcho, ele vira a pinga num gole e, logo em seguida, pede outra. Gaúcho – Agora com pimenta! Me bota uma cana com malagueta, que na minha terra só tem macho!
Fala isso olhando para o mineiro...
Gaúcho (virando num gole) – Me bota outra, tchê! Agora num copo grandão! E me ponha bastante pimenta-do-reino. Eu sou gaúcho macho. Na minha terra só tem macho!
Fala isso de novo olhando para o mineiro, que nessa hora arrisca uma resposta bem de leve:
Mineiro – Já escutei, sô. O sinhô já falô isso um montão de vez...
Gaúcho (para o vendedor) – Ei, tchê. Tu tens creolina aí? Me bota mais uma cana, agora com creolina. Na minha terra só tem macho!
Olha para o mineiro e pergunta:
Gaúcho – E na tua terra, o que é que tem?
Mineiro (falando bem gaiato e mansinho) – Na minha terra tem macho e fêmea. E nóis se dá muito bem...

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A VELHINHA QUE SABIA PECHINCHAR

Tava me lembrando dos tempos das matinês no cinema da minha terra. Uma vez, uma velhinha estava na porta do cinema, dialogando com o porteiro do dito cujo.
Velhinha – Ô moço? Quanto é que custa a entrada pra assistir o seriado Dick Tracy?
Porteiro – O preço da entrada inteira é 50 centavos, minha senhora.
Velhinha – E meia-entrada? Quanto custa?
Porteiro – Meia-entrada é 20 centavos. Mas esse preço é só para criança.
Velhinha – E por que criança paga meia-entrada?
Porteiro (paciente) – Porque criança usa calça curta. É por isso.
Naquele tempo a gente usava calça curta quando criança.
Velhinha (em sua lógica) – Pois, se é pra usar calça curta que criança paga meia-entrada, eu acho que mulher também devia pagar meia-entrada. Devia pagar meia-entrada porque mulher também usa calça curta.
Ela estava falando da calcinha, pois naquele tempo mulher não usava calça comprida. Era pecado!
Porteiro (pensa e concorda com a lógica da velhinha) – É, pensando bem, a senhora está coberta de razão. Se criança, por usar calça curta, paga meia-entrada, nada mais justo a mulher também pagar meia.
Velhinha (com lógica maior ainda) – E acho mais. Acho que quanto mais curta a calça, menos a gente devia pagar.
Porteiro (perdendo a paciência) – Péra aí, minha senhora. Acho que a senhora tá querendo é entrar de graça...

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O BÊBADO E O RATINHO

Esses bêbados da minha terra têm cada uma... Imaginem vocês que um cumpadi meu aparece de repente no bar do Gouveia português, dirige-se ao bom e simpático portuga e pede que lhe sejam servidas duas doses de pinga, que é pra desentupir o peito de tanta poeira. Para surpresa de todos os presentes, o nosso bom de gole, após virar de uma só vez um dos cálices da mardita, tira do bolso da camisa um ratinho miúdo e, carinhosamente, começa a colocar o outro cálice na boquinha delicada do tal rato. Este, por sua vez, sorvia gostosamente a obra-prima da bebida brasileira até enxugar o fundo do cálice.
Esse ritual se repetiu umas dez vezes. É claro que, a essas alturas, o moço já demonstrava em seu comportamento nuances de um cachaceiro. Foi aí que ele pediu ao portuga a conta.
Gouveia – São dez rodadas de duas pingas. Portanto, o senhor me deve 20 doses.
Bêbado – Não, senhor. Tem engano aí. Eu só bebi seis doses e meu ratinho também.
Gouveia – Meu amigo, se estou a lhe dizer que são 20 é porque são 20.
Bêbado (teimoso e enrolando) – De jeito nenhum. Não vou pagar. Eu só tomei seis e o meu rato, seis. O senhor é um ladrão!
Gouveia (se altera) – Estou a lhe dizer que são 20 e pronto!
Bêbado – Pois eu não pago e quero que o senhor chame a polícia, porque agora eu vou quebrar a sua cara...
Ratinho (colocando a carinha para fora do bolso do bêbado, com os olhinhos vermelhos de cachaça e enrolando a língua) – E olha aqui, sêo portuga, se aparecer algum gato por aí, o senhor diz que eu mandei ele pros quinto dos inferno, tá?
Quem contou jura que é verdade...

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É O FIM DO MUNDO

O mundo acabou em fogo. Morreu todo mundo. Acabou-se tudo, como la diz o outro. Só sobrou sobre os escombros carbonizados um macaquinho serelepe, sem um arranhao, pra contar a historia do fim. E ai ele, muito inteligente, pensava alto:

“Agora, sim. Agora eu vou fazer um mundo diferente, porque o mundo que o homem criou era muito ruim. Nacao brigando com nacao, irmao contra irmao… Agora, nao. Eu vou construir um mundo cheio de paz… de tranquilidade… de amor… muita paz… paz… paz.

O mundo que o homem criou era somente guerra… guerra… e mais guerra. Mas agora que eu estou sozinho no mundo, vou comecar pela paz.”

Ele pensava la com ele essas coisas lindas de macaco quando, para sua surpresa, surge no horizonte um vulto. Mal dava pra se ver o dito-cujo. Era distinguir o que seria. O que dava parar perceber era que aquele vulto vinha vindo, vinha vindo para o lado onde estava o nosso personagem, o macaquinho sobrevivente do fim do mundo mau.

Pois bem. Ele foi se esforcando para ver o que era aquele vulto cada vez mais perto. Ate que finalmente deu para nosso macaquinho sacar o que estava ali a sua frente.

Toda saltitante, tambem serelepe, eis que a segunda personagem se identifica: era uma linda macaquinha.

Nesse instante, o nosso macaquinho leva a mao direita a testa e exclama (puto da vida):

“Chiii, vai comecar a merda tudo de novo.”

P.S.: Juro que nao sou machista. Isso e coisa de macaco!

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O CUMPADI MORIBUNDO

O nosso mestre dos causos, o saudoso Cornélio Pires, já disse em seus livros de pataquadas que não existe história velha. O que há são várias maneiras de contá-la. Assim a dita corre o mundo e de repente reaparece por aqui ou por ali, de forma diferente e cada vez mais engraçada. Feito o registro, passo a contar um causo desses que o velho Cornélio me ensinou e eu mesmo me divirto com esse desfecho até hoje.
O caboclo entra correndo na igreja da cidade à procura do sêo vigário e logo perto do confessionário já o encontra. O diálogo que se seguiu foi assim.
Caboclo – Sêo padre! Venha depressa. O sinhô deve ir comigo até o arraiá, pois o cumpadi Zeca tá no úrtimo suspiro. Tá morrendo, o coitado, e eu vim buscá voismecê pra dá uma extremaunção pra ele.
Padre – Onde o seu cumpadi está mesmo? Onde ele mora?
Caboclo – No arraiá da curva torta. Tem uns par de légua daqui inté lá. Mas vamos logo, sêo padre. Ele tá esperando o sinhô.
Padre – Me diga uma coisa: o enfermo está mesmo morrendo?
Caboclo – Craro que tá! Já tá inté com a sororoca... Tá na úrtima suspiração. Tá morrendo mêmo...
Padre – Mas, se é tão longe quanto o senhor diz, de nada adianta eu ir até lá para dar a extremaunção, pois quando eu chegar lá o enfermo já terá morrido com toda a certeza.
Caboclo – Num tem esse perigo não, sêo vigário. Quando eu saí de lá, eu me preveni disso. Ele num morre tão fácil porque eu deixei uns amigo meu intretêno ele com uns causo...

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O MEDO DA ONÇA

Dentre todos os mentirosos que eu conheci, o mais engraçado era o Zé do Farol. Esse tinha um jeito especial de inventar seus causos. Esse que eu passo a contar agora, ao contrário de todo mentiroso que começa contando vantagem, ele começou contando pra gente assim:
Zé Farol – Óia, gente. Esta que eu vou contar agora foi fogo, porque eu sempre tive muito medo de onça. E num é que justamente uma das grandes me apareceu um dia que eu fui caçá? Pois bem: quando eu vi a marvada, carpi os pé. Larguei espingarda, larguei tudo ali mêmo e saí desembestado mata afora.
Ouvinte – E daí, Zé? Conseguiu se livrar da onça?
Zé Farol – Que nada. Pois num é que a mardita garrô corrê atráis de mim feito uma doida? E lá no meio daquele mato. E a onça atráis pega num pega... tava chegando nos meu carcanhá. De repente, eu trupiquei nuns graveto e tuim, caí de boca no chão. Daí, desesperado, virei de barriga pra cima, pra móde num morrê comu covarde. A onça veio vindo... me oiando... e quando chegou pertinho de mim, ponhô a pata em riba do meu peito... abriu aquele bocão bem na minha cara e roncô bem arto ansim: GREEEEE (Zé imitando a onça).
Todos (muito interessados) – E daí, Zé? O que ocê feiz?
Zé Farol – Me borrei todo, me sujei na carça.
Ouvinte – Pois agora gostei de vê, Zé. Agora ocê provô que num mente. Pois, com uma onça dessa no meu peito, até eu borrava. Me sujava as carça também.
Zé Farol (calmo) – Não, gente. Eu tô falando que me borrei, mas foi agora que eu imitei o ronco arto da onça: GREEEEE...

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CACHORRO BOM DE CAÇA

Mais uma do cumpadi Furquim, aquele mentiroso que todo mundo adorava.
Dizia ele que tinha um cachorro que era o melhor do mundo pra móde caçá perdiz. E por isso mesmo os tar ganharam o nome de perdigueiro. É ou não é? Olha só a história que ele contou, envolvendo o seu querido cachorro...
Furquim – Eu num apertêio do meu cachorro perdiguêro pru nada. Tanto isso é verdade que, uma certa vez, eu tendo que ir pra Sum Paulo, me agarrei com o bicho e lá fumo nóis dentro da jardinêra, eu e ele. Pois muito que bem: cheguêmo lá na capitá, um despropósito de gente, e fumo logo percurá os meu parente que morava nos caminho da tar da Lapa. E lá vamo nóis, eu e meu cachorro, rua afora, andando de apé que é pra móde num se perdê. De repente, meu cachorro perdiguêro amarro.
Um aparte: amarrar é quando o cachorro de caça pressente uma dita cuja e fica estático em posição de ataque. E siga lá a história do cumpadi:
Furquim – Meu cachorro amarrô ali mêmo, numa esquina cheia de muvimento de gente andando e artomóve passando. Digo inté que ele amarrô oiando firme pra onde tinha uma grande banca de revista e jorná. E ficô ali sem se mexê. Eu garrei a percurá a tar caça e nada de incontrá. Vai daqui, vai de lá... ele ali amarrado, naquela posição de bão caçadô sem se aluí do lugá e sem piscá. Pois foi aí que eu arreparei. Tinha um jorná aberto dipindurado, desses que é pra pessoa que passa lê as nutícia. Pois num é que no cabeçaio do tar jorná tava escrivinhado assim: Bairro das Perdizes... Ah, o bicho tinha que amarrá mêmo, uai. Bão caçado faz ansim. É ou num é?

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MENTIRA DE CUMPADI

Quem é que nunca ouviu uma mentirinha? De caçador? Ou de pescador? Se falar que não conhece, quem tá mentindo é o dito-cujo. Eu, como tenho por profissão contar causos e cousas, tenho na cachola um carroção de mentiras. E das brabas!

Por exemplo, quero contar de um cumpadi meu que nunca tava sozinho, pois quando ele começava a desfiar das suas, arrodiava de candango, pois as histórias eram de arrepiar qualquer cristão. Mas dêxa ele mesmo contar o sucedido:

“Vinha eu montado no meu cavalo alazão, que pra andar três légua era mió que quarqué artomóve. De repente, começou uns trivéjo (trovões) e uns relâmpio que anunciavam uma tempestade maió do que essas de Sum Paulo. Os raio começaro a triscar no céu e vinha batê bem pertinho de nóis. Pensa que eu tinha medo? Já vi coisa muito pior.

E meu cavalo? Continuava na sua marchinha de ôreia arribitada pra cima. Passava cada raio de déis metro encostando nas minhas costa, relando na cacunda que fazia inté cósca. A chuva estorô que parecia um barde d’água revirado na nossa cabeça. Inté que discansemo num corguinho. Só aí percebi que tava amuntado só na metade da frente do meu cavalo. Um raio grandão tinha cortado ele ao meio. E ele nem reclamô. Fiquei com dó e vortei pra móde encontrá a outra metade. Tava no meio da istrada. Peguei, ajuntei na outra, e imendei as duas parte. Mas num ficô bão. Intão eu cortei um pouco de cipó verde e reforcei a operação.”

Nesse momento, um dos seus assistentes indaga: E agora, ficô bão?
“Pois foi aí que eu digo que ficou bão. Os cipó que eu amarrei tava verde, criou uns bretuêjo, formô um carramanchão pru riba da minha cabeça. Eu terminei a viagem galopando na sombra.”

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VIOLEIRO EXAGERADO

Quando eu apresentava o espetáculo Brasil em Preto e Branco, contava um causo do inesquecível violeiro Adauto Santos, meu companheiro de cena. Era assim:
Outro dia, esse violeiro aqui foi passando de madrugada numa estrada e bateu na porta duma casinha de bêra de estrada pra móde cavá um quarto pra drumí. Bateu na porta, apareceu uma muié, por sinal muito bonita, e ele pediu pouso.
Muié – Num posso, moço. Num posso deixá o sinhô drumí na minha casa. Sou viúva fresca. Meu marido morreu faz só três mêis. Se eu dexá homi drumí em casa, o pessoar da cidade vai falar mar de mim.
Adauto – Mas, dona, eu num vou mexê com a sinhora, não. O que eu sou é violeiro. Gosto muito de tocá viola. Só quero mêmo é drumí...
Devo dizer aqui que a tal muié devia tá cum bastante vontade duns carinho... Três meses de viuvez, já pensou?
Muié – Não, sinhô! Aqui homi nenhum drome...
E tar e coisa, e coisa e tar, e vai e vem, e vem e vai... Sei que o Adauto insistiu tanto, dizendo que o que ele era mêmo era violeiro dos bão, que a muié acabou cedendo.
O Adauto drumiu como um justo a noite inteira. Só acordou de manhãzinha, na hora do café.
Quando chegou na porta da cozinha, ainda meio sonolento, percebeu, num galinheiro do quintal, uma coisa estranha.
Adauto – Dona, a sinhora num sabe criá galinha! Seu quintal tem 10 galos e só uma galinha. O certo é o contrário: 10 galinha e um galo.
Muié – Mas o sinhô tá vendo 10 galo aí?
Adauto – Tô!
Muié – Pois fique sabendo que galo mêmo só tem um! Os ôtro são tudo violêro!

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MENTIROSO CONTRARIADO

O Furquim era bicharêdo bom pra contar mentira. Certa feita, contou essa:
Furquim – Eu tava no meio do mato, quando de repente me apareceu uma onça duns 10 metros de cumprimento. Naquela hora, vendo aquela bitelona de onça, eu carpi nos pé. Eu corria e a onça corria atrais. Até que eu cheguei na bêra do Rio Sapucaí. O jeito era caí n’água e saí nas braçada. A sorte é que eu nado muito bem. E num instante travessei o rio. Graças a Deus.
Estudante (contrariando) – Espera um pouco, sêo Furquim. Se o senhor nada bem, a onça também sabe nadar e até melhor que o senhor. Seria natural que ela nadasse também, atrás.
Furquim – Foi isso mêmo que se deu. Eu caí n’água e a mardita caiu em riba, sempre nos meu carcanhá. Eu saí do outro lado do rio e ela também. E toca eu correr, até que me deparei com uma grande pedra, muito arta e lisa. Ah, dei um galeio no corpo e pumba: pulei pra riba da pedra. Graças a Deus.
Estudante (pegando no pé) – Mas espera aí. Se o senhor pula bem, a onça pula melhor.
Furquim – Pois foi. Eu pulei e a desgramada pulou também. Eu saí de lá e continuei na carreira. Ah, mas a minha sorte se deu foi agora. Uma grande moita de espinhêro, daquelas bem fechada. Meti os peito, travessei a moita e ó... Graças a Deus.
Estudante (de novo contraria) – Mas se o senhor que é humano, tem a pele macia, atravessou o espinheiro, imagina uma grande onça que tem couro duro. Ela tem que atravessar e continuar correndo atrás do senhor.
Furquim (perdendo a paciência) – Óia aqui, moço. O sinhô qué sabê de uma coisa? A onça me comeu... Tô na barriga dela... E o sinhô vá pros quinto dos inferno, tá bão?

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CAIPIRA NO DENTISTA

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente o grande e saudoso Cornélio Pires, escritor e contador de anedotas caipiras. Famoso por estudar as características do nosso caipira paulista, Cornélio era da cidade de Tietê, pertinho de São Paulo. Ouvi esse causo, e outros, durante um pequeno show dele em praça pública, alinhavado por modas de uma dupla de viola e violão. Foi na cidade de São Joaquim da Barra, quando eu tinha meus 10 anos de idade e já gostava muito dessas coisas.
A história foi assim:
Um caipira estava sentado na cadeira do dentista, com muita dor (de dente, é claro).
Dentista – O senhor quer extrair o dente?
Caipira (geme) – Não, sinhô. Eu quero é rancá, mêmo.
Dentista – Então vou lhe aplicar uma injeçãozinha, o senhor vai dormir por uns cinco minutinhos e, nesse tempo, eu lhe arranco o dente. Pois está muito inflamado e, com anestesia local, o senhor não iria agüentar. Tá bom?
O caipira ouve com olhar atento.
Dentista (continua falando) – E para arrancar o seu dente eu vou cobrar apenas 10 mil réis.
O caipira então tira do bolso da calça um maço de notas sujas e começa a desfilá-las com as pontas dos dedos molhados de saliva.
Dentista (interrompendo o gesto do caipira) – Não... não... senhor. Não precisa pagar agora, não, meu amigo. Eu não cobro adiantado.
Caipira (olhando para o dentista) – Quem foi que falô que eu vou pagar adiantado? Tô só contando. Vou lá sabê se quando eu acordar desse sono o meu dinheiro ainda vai estar aqui!

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CAUSO DE PROCISSÃO

Era uma cidade cheia de subidas e descidas. Eis que, na rua comprida do centro da cidade, vai subindo a subida (é claro) uma longa e bonita procissão. Na frente, vai o padre carregando um grande crucifixo, puxando um cordão encabeçado por um andor, onde (é claro) ia o santo que dava motivo à festa. De um lado iam os congregados marianos de fitas no pescoço e velas acesas nas mãos. Do outro, as filhas de Maria, do mesmo jeito. Velas acesas e paramentos condizentes.
E todos os outros devotos esticando a procissão pra mais uns 200 metros de tamanho, cantando um hino muito conhecido: “Os anjos... todos os anjos... os anjos... todos os anjos...”.
Seguiam cantando de um jeito muito bonito e compenetrado, todos olhando para o chão. Mais precisamente para os próprios pés, pois é assim o jeito de seguir uma procissão lá pros lados do interior.
Somente o padre, que puxava as cantorias, olhava para a frente e para o alto e cantava aquele estribilho.
De repente, apenas o padre – o único que olhava para a frente – avista, bem do alto da rua, à sua frente, um ônibus em ziguezague. O motorista, na janela, gritando desesperado que havia perdido o breque. Lá praquelas bandas, ônibus é chamado carinhosamente de jardineira. E aquela jardineira sem breque, seguindo em cheio no rumo da procissão, ia fazer o maior estrago. Foi nessa hora que o padre, percebendo a desgraceira que ia ser, olhando pra trás, grita bem alto para todos: “Turma! A jardineiraaaaaaaaaaaaa!”
Foi a conta. Todos interromperam a cantoria (“os anjos... os anjos...”) para, imediatamente, de um jeito festivo e carnavalesco, cantar: “Oh jardineira por que estás tão triste... mas o que foi que te aconteceu?”...

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PORCO BEM TRATADO

O sitiante estava dando comida aos porquinhos dele quando de repente aparece um fiscal, desses que andam olhando se está tudo dentro da lei agrária e pecuária.
Fiscal – Ô, caboclo! O que você está dando pros seus porcos de alimentação?
Caboclo – Tô dando o que é mió. Tô dando mío.
Fiscal (a fim de gozar com a cara dele) – Então nós temos tantos pobres neste país e o senhor dá milho para os seus porcos? Pois o senhor está multado em 50 reais!
O fiscal lavra a multa e se vai. Passados uns dias, volta àquele sítio.
Fiscal – Boa tarde! E hoje, o que o senhor está dando para seus porcos?
Caboclo – Ah, hoje eu escoí uma comida das boa. Tô dando lavagem. Tudo que sobra das nossas comida – arroz véio, feijão, verdura azeda... Óia só cumo eles comi gostoso!
Fiscal (de novo querendo gozar) – Comida? Com tanta fome no País, e o senhor joga no chiqueiro comida de gente? Tá multado em cem reais.
Lavra a multa e vai embora. Depois de uma semana, lá está o caboclo perto do chiqueiro a olhar os porquinhos. Todos quietinhos e bem comportados. O fiscal chega e diz:
Fiscal – Boa tarde! E hoje o que é que o senhor deu aos porcos?
Caboclo – Pra falá a verdade, faz dias que eu num dô nada pra móde eles comê.
Fiscal – Então eu vou multar o senhor, pois assim eles vão morrer de fome.
Caboclo – Não, sêo fiscá. Já resorvi esse probrema pra móde num sê mais murtado.
Fiscal – Mas se o senhor não dá nada para eles comerem...
Caboclo – Dô, sim, sinhô. Todo dia dô uma nota de cinco pra cada um e eles que comam em quarqué restorante que eles quizé.

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CAÇADOR DE PATURIS

Eram dois caipiras metidos a caçadores de paturis, aquele pássaro que lembra um patinho e que sempre anda em bando, numa algazarra danada:
– Cumpadi, cumé que ocê costuma caçá paturi?
– Cumo quarqué pessoa. Caçando nos mato.
Que pergunta mais estapafúrdia, cumpadi.
– Espera aí, cumpadi. Que é caçando, eu sei, mas quero sabê com o quê ocê custuma caçá.
– Com o que havéra de? Com a minha espingarda de cartucho, ué! Ocê sabe que a carga é grande.
Intão na hora que eu puxo o gatío, eu chaquaio o braço pra móde espaiá a porva. Derrubo uns 10 paturi só com um tiro da bicharêda.
– Pois eu faço diferente. Caço de noite e sem espingarda nenhuma. A minha lanterna é daquelas que tem um facho grandão de luz que parece olofróte dos campo de aviação.
– Ara! Já tô querendo sabê como é isso. Caçá de noite e só cum a lanterna, pra mim é nova, cumpadi.
– Espia só. Os paturi chegam em bando e vão se aninhando naquela arve frondosa. Ficam ali apinhocado mais de 200. Tudo pronto pra drumi. Pois bem. Eu chego quietinho com a minha lanterna no escuro, aprumo pra riba, pra perto da arve e acendo o facho de luz, pro rumo do céu. Aí eu começo a rodopiá aquele facho de luz. De repente, os paturi percebe e entra naquele facho de luz que formou ansim quiném um anér. E entra mais outro, e mais outro. Eu continuo rodando aquele anér de luz... E quando a roda toda tá cheia de paturi... aí eu, num solavanco de surpresa, rodopio ao contrário. Os paturi trombam tudo uns nos ôtro e cai aquele despropósito no chão. Tudo tonto co as cabeçada que deram!

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ENSINANDO O GATO

Era uma madame que vivia no vigésimo andar de um prédio na cidade grande. Era muito bonita, gostava de conforto. Mas, apesar de ser muito rica, vivia sozinha. A tal madame tinha um gatinho lindo que só vendo. O que impressionava mais a madame eram os olhos azuis e a expressão de quem entende tudo o que se passa e o que se fala. E não é que, acreditando mesmo nisso, a dita cuja deu de conversar o dia inteiro com o gatinho, achando que este método, usado para fazer papagaio aprender a falar de tanto a gente repetir, era o que tinha que ser feito? E sempre terminava as aulas insistindo com o gato: “Fala, meu bichano, fala...”.

O bichano sempre lhe respondia com um longo miauuuuuuu. Mas eis que um belo dia, logo de manhãzinha, antes que a madame pudesse recomeçar a sua aula, o dito cujo olha para ela e diz, bem claramente, de um jeito categórico: “Dona, fuja que este prédio vai cair.” Tal foi a surpresa de o bicho falar que a dona saiu desembestada gritando no corredor do seu andar: “Meu gato falou! Meu gato falou! Venham ver!”

E o gatinho ainda insistiu num berro: “Dona, eu tô falando que este prédio vai cair!”
Como ela não deu bola para o aviso, o bichano deu um belo salto lá de cima e caiu na rua, para apreciar junto à multidão, estarrecida, aquele belo edifício desmoronando.

Foi aí que, vendo aquela multidão, o bichano, para surpresa de todos, comentou: “Mas que mulher cretina. Passa mais de um ano insistindo para que eu aprenda a falar e, quando finalmente falo, ela não presta atenção. Eita!”

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LÉ O FIM DO MUNDO

mundo acabou em fogo. Morreu todo mundo. Acabou-se tudo, como lá diz o outro. Só sobrou sobre os escombros carbonizados um macaquinho serelepe, sem um arranhão, pra contar a história do fim. E aí ele, muito inteligente, pensava alto:

“Agora, sim. Agora eu vou fazer um mundo diferente, porque o mundo que o homem criou era muito ruim. Nação brigando com nação, irmão contra irmão... Agora, não. Eu vou construir um mundo cheio de paz... de tranqüilidade... de amor... muita paz... paz... paz. O mundo que o homem criou era somente guerra... guerra... e mais guerra. Mas agora que eu estou sozinho no mundo, vou começar pela paz.”

Ele pensava lá com ele essas coisas lindas de macaco quando, para sua surpresa, surge no horizonte um vulto. Mal dava pra se ver o dito-cujo. Era distinguir o que seria. O que dava para perceber era que aquele vulto vinha vindo, vinha vindo para o lado onde estava o nosso personagem, o macaquinho sobrevivente do fim do mundo mau.

Pois bem. Ele foi se esforçando para ver o que era aquele vulto cada vez mais perto. Até que finalmente deu para nosso macaquinho sacar o que estava ali à sua frente. Toda saltitante, também serelepe, eis que a segunda personagem se identifica: era uma linda macaquinha.
Nesse instante, o nosso macaquinho leva a mão direita à testa e exclama (puto da vida): “Chiii, vai começar a merda tudo de novo.”

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LAGOA DAS PIAPARAS

Esse causo quem me contou foi o cumpadi Ranchinho, da dupla Alvarenga e Ranchinho. Conto aqui com as palavras dele:

Cumpadi, dia desses fui pescá na Lagoa das Égua e quando ponhei a primeira minhoca agrudada no anzó foi aquela gostosura. Ponhei e fisguei logo. Saiu uma piaparona das bitela. E tava gorda que só vendo. Tão gorda que foi só eu ponhá as mão nela pra tirá do anzó que ela gritô logo, cum a voz tremida:

– Moço, num leva eu não. O sinhô num tá vendo que eu tô barriguda? Tô cum a barriga cheia de piaparinha pra móde enchê essa lagoa. Num leva eu não, moço!

Então fiquei com muita dó e sortei ela na lagoa de novo. Mas logo ponhei outra isca no anzó que era pra móde eu num í pra casa cum as mão abanando. Então, do mesmo jeito da premêra vez, foi ponhá e fisgá. Outra piapara, choramingando tomém:

– Moço, num come eu não. Eu tô prenha. Tô esperando neném. Sorta eu, moço.
Fiquei cum dó e sortei tomém. E assim foi. Cada piapara que eu fisgava, era aquela choradêra.
Até que de repente peguei uma bitelona das graúda mêmo. Intão antes que ela choramingasse quarqué coisa, fui falando:

– Ocê num tem escapatória. Ocê vai pras panela de quarqué jeito. Me diga lá uma coisa: ocê também tá grávida de piaparinha?
– Não moço. Eu num tô esperando fio não. Mas por favor. Num come eu não. Sorta eu tomém.
– Ora... a móde que eu vô sortá ocê, se ocê num tá barriguda de piaparinha?
Daí... óia só, cumpadi, o que a desaforenta me respondeu:
– O sinhô deve me sortá, pru que eu... sou a partêra da lagoa.

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O BARBEIRO BESOURO E O MICRÓBIO

Um belo dia, apareceu na barbearia da esquina da pracinha um viajante querendo fazer, ou melhor, cortar a barba. Nesse momento, o Besouro fazia a de um freguês cujo rosto era cheio de espinhas. Por mais que se esforçasse, não conseguia ficar sem tirar um pouco de sangue do freguês, que não reclamava. O viajante, sentado em uma cadeira de espera, pensava lá com ele:

“Quero só ver se esse barbeiro, quando for fazer a minha barba, não vai desinfetar essa navalha.”

Naquele tempo a navalha era afiada na frente do freguês, com uma tabuazinha, num barulhinho mais ou menos assim: plac-plac, plac-plac.

Bom, acabou-se aquela barba do freguês que tinha o rosto sangrando. Eis que o viajante é convidado a sentar naquela cadeira, e com isso fica de olho na navalha que o Besouro já havia fechado sem desinfetar, é claro. E papo vai, papo vem, que barbeiro sempre tem papo. O sabão já penetrava na pele tratada do viajante, quando o Besouro abre a navalha em questão, apronta a tabuazinha. E plac-plac, plac-plac... (eta barulhinho).

Feito isso, o Besouro vai com aquele jeitinho para dar a primeira passada do aço, eis que o nosso amigo viajante estrila:

– Mas como? Então o sinhô tem a coragem de fazer a barba sem desinfetar a navalha! Esta navalha está cheia de micróbio!

O Besouro, como bom caboclo matreiro, não se alterou. Na maior calma, com a dita navalha na mão direita e a tal tabuazinha na outra, faz o gesto de amolar e diz:

– Que micróbio? Qual é o micróbio que agüentaria uma porrada desta na cabeça? Plac-plac, plac-plac.

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ARA, QUE SUSTO DANADO!

Um caminhão velho, desses de carregá tranquera, foi buscar na cidade um caixão de defunto pra ser usado por um dito cujo que tinha falecido lá praquelas redondezas.

Lá vinha o caminhão com o caixão (sem o defunto, que ainda tava na casa de moradia).

Eis que, ao passar por um capiau, o motorista é interpelado na tentativa do referido capiau cavar com isso uma bêra, que é praquelas bandas uma carona.

Capiau – Oh, moço! Será que o sinhô pode me dar uma bêra até o Lageado?
Motorista – Pode trepá lá em cima, coió. E óia: lá na carroceria tem um caixão de defunto, mas não se preocupe porque ele tá vazio.
Capiau (trepando) – Brigado, moço.

De repente, começa a chuviscar. O tar capiau tinha tomado remédio quente e não podia levar aquele chuvisqueiro na cachola. Abriu a tampa do caixão de defunto vazio e se agasalhou lá dentro dele, de um jeito até bem que gostoso. Fechou o caixão com a tampa, sem medo de nada.

Acontece que, conforme o caminhão passava na estrada, outros capiaus também pediam bêra, chegando a juntar uns 20 no caminhão.
Achavam naturalmente que ali tinha um defunto fresco, pois o motorista ia sempre avisando: “Óia. Pode subi, mas num liga praquele lá de riba, não.”

Eis que a chuva dá uma parada boa. Nessa hora, o capiau que ia dentro do tal caixão abre num impacto a tampa e, sentando-se num gesto brusco, pergunta a todos:
– Cumé, moçada? Já parô de chovê?

Nem é preciso dizer o que aconteceu. Foi capiau pra tudo quanto era lado, com o caminhão em movimento.

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BOM NÃO É MALVADO

viajante chegou numa cidade e perguntou o que tinha pra se fazer ali, pra móde distrair um pouquinho. Logo lhe disseram que havia lá no arrabalde da cidade uma rinha de galo. Lugar onde colocam os coitadinhos para brigar.

Era a vez de um galo branco muito bonito, de crista vermelha, e de um galo preto, também muito bonito. Galos com esporas afiadas com lima. Coisa de gente ruim mesmo, pois onde já se viu afiar as esporas pra um deles sair dali prontinho pra ir pra panela do bar mais próximo?
Mas vamos ao causo.

Viajante (para um apostador) – Moço? Eu também queria fazer uma fezinha, só que não conheço a qualidade dos galos que vão brigar. Qual é o bom, hem?
Apostador (respondendo sem olhar para o viajante) – O bom é o galo branco.
O viajante, sem pestanejar, lascou uns 500 mil réis no galo branco.

Começou a briga e foi aquela loucura. Esporada pra cá, pra lá, que era um deus-nos-acuda. Voava sangue. E o pior é que voava sangue do galo branco, que não deu pro cheiro. O galo preto tinha levado a melhor. E quem tinha mesmo levado a pior era o nosso viajante, que perdeu aí uns bons trocados.

Viajante (para o apostador) – Ô moço, o senhor não disse que o bom era o galo branco? Eu acabo de perder 500 por sua causa.
Apostador (na maior cara-de-pau de interiorano) – O bom era o branco, mesmo. Porque o preto... o preto é o marrrvado, sô! (E ainda ri.)

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O ADMINISTRADOR DE FAZENDA E "O TAR DE TREM"

Pra quem não sabe, o administrador de fazenda é aquele homem de confiança do dono que entende tudo do ramo. Enquanto o fazendeiro curte a vida na cidade ou cuida de outros afazeres por lá, o administrador segue tocando a vida da fazenda. É uma responsabilidade muito grande essa.

Nesse causo, o fazendeiro tinha arranjado um novo administrador e havia lhe recomendado o seguinte:
– Sêo Antônio, como o senhor sabe, a minha fazenda é cortada por uma estrada de ferro. A recomendação que faço é para que o senhor esteja sempre atento para que o trem não mate nenhum animal. Quando ele passar, o senhor já deverá ter recolhido todos para o curral, para depois soltá-los no pasto de novo. Entendeu?
– Sim, sinhô. Pode dexá que esse tar de trem aí num há de matá nenhum animar do sinhô.
Vale esclarecer aqui que esse administrador não tinha nenhuma prática nesse trabalho. Era sua estréia na função.

Pois bem. Feitas as recomendações, o dono da fazenda volta pra cidade pra somente retornar um mês depois. Pra seu espanto, haviam morrido umas dez cabeças de gado, vitimadas pelo mardito trem. Ele vira para o administrador, bravo:
– Mas eu não lhe avisei, sêo Antônio, que era pra tomar cuidado com o trem? Como o senhor deixou que isso acontecesse?
– Óia aqui, sêo coroné! O trem matô déis cabeça, num é? Mais eu lhe digo que o sinhô teve até sorte. Sabe por quê? O tar de trem veio de frente, de cumprido. Se ele viesse ansim de lado, de banda, tinha matado a boiada inteira...

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BOATEIRO INCORRIGÍVEL

Foi nos tempos da marfadada revolução. Tinha um camarada que fazia boato de tudo num botequinho que freqüentava em São Paulo. Inventava coisas do governo militar, de autoridades.

Acontece que, desse barzinho, um coronel que estava sempre à paisana era também freguês. E, portanto, sabedor e até ouvinte assíduo do boateiro. Ninguém naquele boteco sabia que ele era coronel do nosso glorioso Exército.

Mas os boatos do tal amigo foram de certa forma chegando ao exagero e, com isso, no bom palavreado, enchendo o saco do bom militar. Daí o tal coronel resolve fazer uma brincadeira corretiva com o boateiro. Simulou uma operação militar, com jipes, metralhadoras e pessoal fardado.

Pois bem. Era de tardezinha, nosso amigo dos boatos falava as suas e eis que, de repente, surge aquela operação militar de araque.

Coronel (fardado e bravo) – O senhor está preso por causa dos boatos referentes ao Exército!

Levam o dito-cujo, simulam um júri e a condenação: morte por fuzilamento. Isso posto, lá está o nosso amigo num paredão e na sua frente cinco fuzileiros (armas com balas de festim, claro). Disparam, e o susto foi o pretendido. O coronel se aproxima, ainda bravo:
– Isso é só pro senhor aprender a não falar mal das Forças Armadas!

No outro dia, lá está o querido boateiro, no mesmo botequim. Alguns clientes e amigos se aproximam para saber do efeito da bronca do militar. O nosso amigo boateiro chama todos para cochichar:
– Olha, pessoal. Não contem pra ninguém. Mas o nosso Exército está totalmente sem munição!

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DITO PRETO E O GUARDA

O Dito tinha comprado um caminhãozinho ano 1928, Chevrolet, que não tinha mais onde estar estragado. Mas para o que ele queria tava pra lá de bom. Era só para o trabalho de puxar cana nas fazendas das redondezas.
Aos sábados, que era dia de folga, o Dito como sempre toma o rumo da Via Anhangüera. Ao pegar a estrada, eis que aparece um guarda rodoviário, fazendo sinal para o Dito encostar.
Dito foi com seu caminhãozinho para a direita da estrada e, lá embaixo, depois de rodar uns 100 metros, foi que parou com tudo. Não se ouvia mais nem o ronco do motor do calhambeque, de tanto se misturar com o barulho de lata velha e carroceria podre. O diálogo que se seguiu entre ele e o guarda foi assim:
– A carta de motorista?
– Ahn... Essa, num tenho não. Num deu tempo d’eu cumprá a carta ainda.
– Documento do carro?
– Que documento?
– Documento de propriedade do carro. Documento que prova que o carro é seu.
– Pelo amor de Deus! O carro é meu. Comprei ele à prestação do Coroné Lindário. Pode perguntá lá em São Joaquim. Todo mundo me cunhece.
Depois de uma série de averiguações, o guarda percebeu que não tinha jeito:
– O senhor não tem carta, não tem documento, não tem farol, não tem buzina, não tem breque... Olha, meu amigo, se eu for multar o senhor, nem vendendo este caminhão vai dar pra pagar tanta multa. Vamos fazer uma coisa: faz de conta que eu não vi o senhor. Pode ir embora com o seu “veículo”.
– Então, sêo guarda, me faz um favô. Dá uma impurradinha no bicho que eu tô sem bateria tamém...

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UM CASO DE VIAJANTE

Ninguém conhece e conta mais piadas do que os viajantes, aqueles representantes de empresas que saem pelo interior do Brasil, fazendo suas visitas aos clientes e renovando seus pedidos.

Como passam por muitos lugares e convivem com muita gente, é bem explicável o carroção de histórias engraçadas que eles passam a contar.

Essa gente maravilhosa deixa suas famílias para trabalhar viajando por este País grande e, pra empurrar a vida, tem de aprender histórias engraçadas para repassá-las adiante.

Conheci um viajante japonês que era um verdadeiro artista na arte de contar piadas e fazer imitações. Tem uma história dele que quero contar agora.

Um viajante, seguindo por uma estrada, tenta localizar uma pousada, pois já passava da meia-noite. Sem encontrar uma casa especializada, arrisca pedir pouso na casa de um caipira que já ia para o quinto sono.

Viajante [bate na janela da casinha] – Ô de casa? O senhor poderia deixar eu dormir esta noite em sua casa? Eu pago bem. Não consigo nenhuma pensão por esta estrada.
Caipira [de dentro da casa, meio sonolento] – O sinhô por acaso trouxe cobertô?
Viajante – Não, senhor. Não tenho cobertor comigo, não.
Caipira – O sinhô por acaso trouxe lençór?
Viajante – Claro que não, meu amigo. Estou viajando apenas a trabalho.
Caipira – O sinhô trouxe então trabicêro?
Viajante – Meu senhor, por favor, eu preciso de uma noite de sono e não trouxe nada disso que o senhor está falando.
Caipira [na bucha] – Qué dizê que de drumí o sinhô só trouxe os óio, né?

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ÊTA CABOCLO MISERÁVEL!

Lá em São Joaquim da Barra, muitos inventaram causos da miserabilidade do Abílio Estori. Quando a gente fala em miserável, é aquele camarada que não rói a unha porque dói. É aquele que, de graça, não dá nem bom-dia.

Sobre o Abílio, chegaram a contar uma escabrosa. Naquela época, era comum tomar Melhoral para qualquer dor. Conta-se que o Abílio, com dor de cabeça, teria amarrado na ponta de uma linha de costura um comprimido de Melhoral. E tomou com um gole de água. Assim que a dor passou, o Abílio teria puxado pra fora o Melhoral, para guardar para outra ocasião. Outra dor.

E tem outra do saudoso Pedro Chediac, que, dizem, era muito miserável também.

Lá vem o seu Pedro numa caminhonete na estrada. Ao ver um caboclo na bêra do caminho, toma a iniciativa de parar e oferecer (vejam só) uma carona.

O caboclo sobe na caminhonete. Prosa vai, prosa vem, o Pedro de repente diz ao caboclo:
– O senhor por acaso já me conhecia?
– Só de vista, moço.
– Pois eu sou muito conhecido por estas bandas. Meu nome é Pedro Chediac.

O caboclo fez um ar de quem já ouviu falar dele.
– Pois então. Veja o senhor que, na minha cidade, dizem que sou muito miserável. Mas é
intriga. Pois eu mesmo não lhe ofereci uma carona, agora mesmo? Eu sou muito bom. Não sou miserável. Se isso for verdade, quero que, por um castigo, uma jamanta dessas bem grandes e pesadas passe por cima de nós dois, agora mesmo. Neste instante.

E o caboclo, no ato:
– Ô moço! O sinhô qué fazê o favô de encostá a sua caminhonete? Eu quero apeá agora mesmo. Bem depressa!

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PINGUÇO NO INFERNO

Tem um cumpadi meu que tomava todas. O mardito chegava em casa sempre chumbado até os cacos. A mulher não agüentava mais.

Foi nesse pé até o dia em que ela resolveu dar uma lição no bebum. Combinou com uma cumadi. Devia acontecer depois de a cumadi colocar o tal bebum na cama pra dormir. O dito cujo, depois que dormia de fogo, desmaiava.

Pois bem: tudo acertado. Quando ele tinha acabado de se apagar no sono, a mulher veste nele um terno preto, gravata e tudo. Com a ajuda da vizinha, coloca o infeliz numa mesa no centro da sala. E, como se fazia com defunto antigamente, acende quatro velas grandes, joga por cima do corpo dele um punhado de jasmim e apaga as luzes da sala.

A mulher, dispensando a vizinha, posta-se ao lado do suposto defunto com um véu preto a cobrir-lhe o rosto. Na penumbra da sala, com um prato de comida vazio na mão, fica ali, à espera do acordar do grande cachaceiro.

Depois de umas oito horas, foi isso que aconteceu:
Cumpadi (acordando): – Ué? Onde é que eu tô? Meu Deus!
Mulher (com voz cavernosa): – Você está no inferrrno. Você morreeuuu...
Cumpadi: – E a sinhora? Quem é?
Mulher: – Eu sô a cozinhêra de Satanásss. Estou aqui para dar de comer a quem tem fomeee. Cooomaaaa (oferece o prato vazio). Cooomaaa.
Você está nos quinto dos infernos.
Cumpadi: – Escuita aqui... Já que a sinhora é a cozinhêra de Satanás e tá me oferecendo comida, me diga uma coisa: pra móde um aperitivo... pra móde bebê, a sinhora num troxe nada não?

Diz-se que ele bebe até hoje. A mulher, essa morreu faz um tempão!

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O CAIPIRA DO CACHIMBO

Lá ia o trem da Mogiana, soltando aquela fumaceira e faísca. A véia maria-fumaça. E, bem refestelado na segunda classe, um caboclo. Traçava um cachimbão que empesteava o vagão inteiro.

Entre os infelizes obrigados a engolir aquele fedor, estavam duas colegiais regateiras que só vendo. E tinham um luluzinho branco, com uma coleirinha vermelha. Um gracinha de cão.

De repente, aquele caipira resolve dar uma desapertadinha na bexiga. Deixa o cachimbo no aparador da janela e se encaminha para o mictório.

Ah... brilhante idéia teve uma das colegiais regateiras. Exatamente o que você está pensando: passaram a mão naquele cachimbo fedorento e... zássss. Apincharam pela janela do trem.

O caipira volta e começa a procurar seu querido cachimbo. Apalpa daqui, procura dali, e nada. Se acomoda conformado e segue viagem, sem pitar, o que para ele devia ser grande sofrimento.

As regateiras caem na gargalhada e no fuxico. Eis que têm a idéia de passear por outros vagões. E esquecem de levar o tal cãozinho lulu. O caipira, sem cerimônia, pega o dito cujo, abre a janela e, com o trem em movimento, despacha o animalzinho.

Lá vêm então as mocinhas e começam a chamar o lulu:
– Nenê! Nenê! Onde você se meteu?

E começam preocupadas a perguntar aos passageiros se viram o Nenê. O caipira responde calmamente:
– Por acauso é um cachorrinho piquitinho, branquinho, com uma coleirinha vermelhinha no pescoço?

Elas ficam eufóricas:
– É. É esse mesmo! Onde ele está?
– Ele foi percurá o meu cachimbo, dona!

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A MULHER QUE MORREU DUAS VEZES

Esse causo de caipira tem catalepsia no meio. Pra quem não sabe, trata-se de um ataque que a pessoa pode sofrer, todos pensam que essa pessoa morreu, mas na verdade, depois de um bom tempo, a dita-cuja volta a respirar, para alívio dos parentes e amigos.

Pois bem: no causo que passo a contar, a mulher de um caboclo sofreu um desses ataques. Só que, inclusive o marido e o médico, todos acharam que a cumadi havia passado desta para uma melhor. Tinha batido as botas. Isso porque, lá praquelas bandas, nunca ninguém havia ouvido falar nessa tal de catalepsia.

E toca o enterro pela rua abaixo rumo ao cemitério que ficava a uns bom par de caminho. Na alça esquerda do caixão ia o marido, todo pesaroso de tanto chorá a noite inteira. Na direita, um desses cumpadi de fé, o Nhô Joaquim.

De repente Nhô Joaquim trupica numa pedra e se desequilibra, fazendo com que os outros perdessem o rebolado. E lá vai o caixão pro chão, abrindo-se. E, para grande surpresa geral, a defunta tava viva. Tinha sofrido a tal de catalepsia. Surpresa e alegria, levam a dita pra casa e, à noite, foi uma grande festa, com banda de música e chope.

Passam-se anos até que um dia a nossa personagem morre de novo. Agora de verdade. E lá vai o cortejo. Na alça esquerda, o pesaroso marido. Na direita, Nhô Joaquim.

Ao se aproximarem do mesmo lugar onde Nhô Joaquim havia trupicado, o marido olha de esguêio para ele:

– Oh, cumpadi Joaquim! Vê se dessa vez ocê óia onde pisa. Se ocê trupicá de novo, eu te arrebento!

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FILHOTE NÃO VOA

Existe por aí afora muito caboclinho esperto e safado. Imaginem que lá pras bandas do Corgo Fundo tinha um que era tal e qual do jeito que estou falando.

Pois não é que o dito cujo deu de roubar coisas da igreja de lá? E virava e mexia, o padre saía excomungando o tal, pois não conseguia pegá-lo com a boca na botija, ou melhor, com a mão na mercadoria roubada. E vai daqui e vai dali, continuava sumindo coisa. Ora uma imagem, ora dinheiro dos cofrinhos... Enfim: um despropósito de coragem pra furto.

Mas – sempre tem um mas – eis que o padre resolve botar um paradeiro na roubança. Arma-se de um trabuco carregado e posta-se às escondidas no escuro da igreja em altas horas e ali espera, atocaiado, pelo ladrãozinho que não deveria demorar para aparecer. Devia ser umas 3 da madrugada quando o padre se depara com um vulto esperto na escuridão. Engatilha o trabuco e aponta no rumo do vulto que, percebendo, se esconde com a carinha de safado por detrás de uma estátua grande de um anjo de asas...

PADRE (falando alto) – Quem está aí?
Ninguém, é claro, responde.
PADRE (mais alto) – Quem está aí?
Ninguém responde.
PADRE (apontando a arma engatilhada) – Pois bem. Pela última vez, vou perguntar: quem está aí? Se não responder, vou pregar fogo.
A VOZ (trêmula e disfarçada) – É... é... um anjo, seu vigário. Eu sô um anjo...
PADRE (percebendo a malandragem)
– Que anjo o quê, seu idiota! Voa já daí!
A VOZ (caipiresca) – Num posso avuá, seu vigário. Eu sô fióti!
Conta-se que o padre, depois dessa resposta, resolveu ir dormir.

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SÓ MESMO SUBINDO NA ÁRVORE

Foi na época da revolução dos mineiros e paulistas. Vinha pela estrada um caipira. Eis que surge um punhado de mineiros:
– Ocê aí, capiau! Paulista ou mineiro?
E o caipira, pensando que eram paulistas:
– Ué, eu sô polista quiném ocêis.
Foi falar e receber um punhado de soco e pontapé. Dali a pouco, surge outro grupo.
– Ocê aí, paulista ou mineiro?
E o caipira, pensando que eram mineiros:
– Eu sô das Minas Gerais, uai!
Foi falar e receber porrada. Dali a pouco, avista outro grupo e se atrepa numa árvore. Mas qual! Um deles ali descobre o capiau e pergunta:
– Ocê aí, capiau duma figa! Paulista ou mineiro?
Nosso capiau responde com voz tremida:
– Hem? Eu.... Eu sô fruita!

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O ROUBO DO RELÓGIO

No arraial, havia um sujeitinho danado pra roubar, o Justino. Todo o mundo estava acostumado. Numa dessas, sumiu o relógio do cumpadi João, que correu para a delegacia com três testemunhas.
O delegado pergunta:
– Os senhores viram o Justino roubar o relógio do seu João?
– Vê, eu num posso dizê que vi. Mas ele é ladrão mêmo. Pode prendê!
E a segunda testemunha:
– Óia, num vô falá que vi. Mas eu garanto que foi ele.
– E o senhor? Viu ele roubar o relógio?
– Num carece de vê, dotô! Prende logo esse peste!
O delegado olha firme pro Justino:
– Olha aqui. Eu também tenho certeza de que foi você. Mas, como não temos provas palpáveis... você está absolvido.
– O quê? Qué dizê então que eu tenho que devorvê o relógio?

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O QUE É QUE OCÊ ME DIZ, CUMPADI?

– Cumpadi... eu tenho um cachorro bão de caçá que só vendo. O bicho tem um faro... Pois ocê imagina que um dia eu quis fazê uma experiência. Peguei minha camisa suada, esfreguei ansim bem no fucinho dele que era pra móde ele senti o meu cheiro. Mandei segurá ele numa correia, fui pro meio da mata virge, andei bem uns 10 quilômetro, deixei minha camisa num ponto do mato, bem escondida, e vortei correndo pra donde ele tava. Sortemo o danado e fiquemo só esperando pra ver. Pois não é que despois de mais ou mêno uma hora o dito cujo vem correndo com a minha camisa na boca? O que é que ocê me diz, cumpadi?
– Eu digo que ocê precisa tomá um bão banho. Vai fedê pra lá, sêo.

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TREM BÃO É SER MINEIRO... UAI!
O mineirinho estava desenganado, ia morrer naquele dia mesmo, segundo os médicos. E todo o mundo já estava a par dos últimos instantes do cumpadi, menos o próprio.

Como ele não sabia, o que a muié fazia, junto com a fiarada, era chorar nos cantos da casa, escondida. Eis que, num momento em que ela vai pra cozinha arrastando os minino, um dos menor encosta no portal que dava pro quarto. O doente, vendo o filhinho ali parado, diz:
-Oh, fío! Tô sentindo um cheirinho de pão de queijo. Vai lá pedir um pra mim, fío.
O menino vai. Na volta, grita pro pai moribundo:
-A mãe falô que os pão de queijo é só pro velóóório.

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APETITE DE FORMIGA GRANDE

Todo sábado tinha feijoada da Dona Zica. Teve uma que o Formigão mandou ver umas três repetições, de tão gostosa que tava.
Eis que um escurinho vê o Formigão suando frio e grita para a dona da casa que o amigão poderia estar sofrendo um enfarte. Corre-corre daqui, corre-corre dali, o falatório de que o Formigão ia bater as botas ali, depois de comer umas tantas feijoadas da Zica.
Dona Zica correu no quintal, apanhou várias folhas para chá, preparou um bem forte e trouxe correndo pra salvar a vida dele.
– Toma, Formigão, disse ela.
Formigão, pra espanto geral, apanhou o chá, olhou pra tudo mundo e simplesmente perguntou, curioso:
– Mas n ão tem bolacha?

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DESAVENÇA EM FAMÍLIA

Caboclo quando dá pra ficar de mal de alguém, sai de perto.

Teve um que brigou feio com os cunhados. Cinco anos de rusga. Eis que ele cai de cama e fica morre não morre. Pede pra esposa chamar os desafetos. O João e o Antonho.

A mulher fica radiante. A desavença na família era o maior desgosto dela. Ela pede aos irmãos entre lágrimas:

– Vamu lá em casa! O Zé qué perdoá ocês antes de embarcá!

A contragosto, eles atendem ao pedido. A cena do reencontro foi assim:

– João? Chega pra cá. Antonho? Ocê tomém. Eu quero morr ê quiném Jesus. Um ladrão de cada lado.

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A GOZAÇÃO

Vinha o capiau pela estrada empoeirada, montando um pangaré, quando pára um carrão último tipo. Dentro, um engravatado passa a fazer gozação.

– Compadre, você neste cavalo e eu nesta máquina que possui em seu motor nada mais, nada menos que 120 cavalos. Você não sente inveja?

Dá uma gargalhada e, numa arrancada, joga poeira no capiau.

Mas, lá na frente, eis que o tal cidadão se depara com uma grande poça d’água, cai com seu carro e fica ali, com as rodas girando em falso, quando surge o tar capiau.

O caipira pára o pangaré. E, antes que o cidadão pedisse qualquer coisa, despacha:

– Ué? Ocê parô aqui pra móde dá água pra sua tropa?

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TRABALHO IDEAL PARA UM VADIO

O Zé Pitanga era figura popular na minha terra. E um grande desocupado. Isso para não chamar o dito-cujo de vagabundo, que gente da minha terra nunca tem defeito. Eis que um belo dia o Zé desaparece. Uns dois meses depois, vorta. E um curioso:
– Onde é que ocê teve todo esse tempo, Zé?
– Na cidade grande, trabaiando – respondeu, todo orgulhoso.
– O quê? Mas trabaiando de quê, Zé? – insistiu o conterrâneo, desconfiado.
– Guia de cego.
– Mas como é que pode? Se ocê nunca tinha ido na cidade, como é que pode ajudá um cego?
– Ué, eu num conheço a cidade, mas o cego conhece, uai.

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MORTE É NATURAL

Delegado, ao caipira que acaba de matar desafeto:
– Como o senhor tem o descaramento de dizer que o morto teve morte natural, se lhe deu 15 facadas?
– Pois int ão, dotô. Num era naturar que ele morresse?

CONSIDERAÇÃO

Caipira vai à casa do coroné:
– Seu coroné, o Gardêncio morreu e vim cunvidá voismecê pra acumpanhá o interro dele.
O coroné:
– Ocê sabe que eu mais o Gardêncio num se dava. Fosse no seu interro, eu ia com muito gosto.

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FITIBÓ

De tão matuto, o caboclo nunca tinha visto um jogo de futebol. Um dia, passando por um campo, o coronel, dono da fazenda, da bola e do apito, escala-o pra jogar. E de goleiro – gorquipa, como se diz por lá.

E tá ele no gol. De repente, pênalti. Quem vai chutar é o Zé Tombo, apelido dado por derrubar vários gorquipas. A bola parte, e com uma força! Bom, deixa o caboclo arrematar em verso o que assucedeu:

Quando fui pegá a bola
me atrapaiei, meu patrão
passô pru entre meus braço
bateu numa região
que foi batendo, eu caindo
espulinhando no chão

Daquele dia pra cá
nem mode ganhá dinhêro
num jogo mais de golêro
nem cum chuva, nem cum sór
nem aqui, nem no deserto
nunca mais passo nem perto
dum campo de fitib ó.

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CABRA DE LAMPIÃO

Um porteiro da Rádio Tupi, baiano véio, por quem todos os artistas tinham grande carinho e até chamavam de Baiano da Bahia, dizia sempre que tinha sido cabra de Lampião. E que tinha participado de muitas batalhas do bando contra as volantes de soldados.
– Numa dessas batalhas – contava ele –, nóis matemo tanto sordado, tanto sordado, que urubu só comia de sargento pra cima.

PEDIDO ESTRANHO

Caipira vai passando na frente de uma casa que vende artigos para cabeleireiros. Na placa está escrito:
Artigos para Toucador
Caipira entra, vai pra mocinha do balcão e pede:
– Quero um cordoamento pra viola.

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SÓ NA FORÇA

Quatro caboclos fortes estão numa luta danada com um caixote grande, no meio duma porta de armazém, dois numa ponta, dois na outra. E força daqui, força dali, e nada do dito-cujo passar. Cansado, um deles desacorçoa:
– É, num adianta, nóis num vai consigui fazê esse mardito caixote saí do armazém.
Aí que o outro, do lado de fora, fala:
– Sa í? Ué... Nóis tava pensando que era pro caixote entrá.

QUEM SABE

O proprietário de uma loja, ao caipira que queria um emprego:
– Eu preciso de uma pessoa responsável.
– O sinhô bateu no lugá certo. Em tudo lugá que eu trabaio, quando acontece arguma coisa mar feita, falam que eu sou o respons áver.

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NO CAPRICHO

O Adãozinho, meu cumpade, enquanto esperava pelo delegado, olhava para um quadro, a pintura de uma senhora. Ao entrar a autoridade, e percebendo que o cabôco admirava tal figura, perguntou: “Que tal? Gosta desse quadro?” E o Adãozinho, com toda a sinceridade que Deus dá a um cabôco da roça: “Mas, pelo amor de Deus, hein, dotô! Que muié feia! Parece fiote de cruis-credo, parente do Deus-me-livre, mais horríver que briga de cego no escuro.” Ao que o delegado não teve como deixar de confessar, um pouco secamente: “É minha mãe.” E o cabôco, em cima da bucha, não perde a linha: “Mais, dotô, inté que é uma feiúra caprichada, num é?”

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Imagem da Hora

A bonita e elegante sede do Clube Atlético Ypyranga