Lembranças de Família Jafet

 

O patriarca dos irmãos Jafet, Chedid, era professor da Escola Ortodoxa Santo Elias (Mar Elias), na cidade natal da Família Jafet, Dhour-Choueir, localizada na província do Monte Líbano, e também, professor, da Escola Três Luas (Thalatat-Ahmar), em Beirute, escola da qual Nami, seu filho primogênito, também foi professor, antes de ocupar a cadeira de Matemática, na AUB (American University of Beirut).
 
Constata-se, (vide artigo publicado na revista Carta do Líbano), que o primogênito dos irmãos Jafet, Nami, o respeitado professor de matemática, da Universidade Americana de Beirute (à época, Colégio Protestante Sírio), havia participado de uma reunião com Dom Pedro II, na ocasião de sua viagem pelo Oriente Próximo, em que este exortou os libaneses a emigrar ao Brasil, garantindo-lhes, o salvo-conduto, para a prática do comércio de mercancias, em demanda, no território nacional. 
 
A primeira loja da colônia árabe, na Rua 25 de Março foi fundada por Benjamin Jafet, em 1890, conforme registro no Memorial do Imigrante. Em 1887, Benjamin, cujo sonho era emigrar ao Brasil, desembarcou no Rio de Janeiro, e, como mascate, comercializou seus produtos - em grande parte, adquiridas em Marselha, na França -, percorrendo Minas Gerais, descendo o Vale do Paraíba, onde localizava-se grande parte das fazendas de café, antes de seguir rumo à capital paulista, berço da nascente indústria brasileira, e, já à época, maior centro de compras do Brasil. 
 
Em 1888, Basilio vem ao Brasil. Benjamin e Basilio foram mascates, vendendo seus produtos pelo interior à fora, acumulando capital. Ressalte-se que foi uma fase de muito trabalho, coragem e audácia. Era a abertura de uma nova fronteira, sem qualquer subsídio!
 
Após, alguns anos, a loja passa a ocupar um espaço maior na Rua 25 de Março, e com a chegada de Nami Jafet, o prévio acúmulo de capital e a união dos membros familiares em um único país, é constituído sociedade entre os quatro irmãos (Nami, Benjamin, Basilio e João) então residentes no Brasil, sob a firma Nami Jafet e Irmãos. Então, é aberta uma maior loja de tecidos importados, na Rua Florêncio de Abreu, que mais tarde, converteu-se em escritório, com o foco dos investimentos sendo dirigidos para a indústria.
 
Miguel deixou descendentes no Líbano, que mais tarde emigraram ao Brasil, e abriram uma indústria de sedas, em Batatais. Foram eles Gabriel e Raphael Jafet.
 
Na década de 1880, o Governo Imperial Russo, sob o reino do Czar Alexandre III, concedeu a Miguel uma bolsa de estudos, para cursar seu doutorado em filosofia, em Kiev, atual Ucrânia. Ávido estudante, passou a estudar medicina em Montpellier, em seguida. 
 
Por um infortúnio, ao desembarcar no Brasil, onde seus outros irmãos já haviam se estabelecido e constituído negócios em sociedade, não se adaptou ao clima tropical, e retornou à sua pátria natal, onde foi secretário do Consulado da Rússia em Beirute.
 
Saliente-se que a França e a Rússia, à época eram as “protetoras” das comunidades cristãs maronita e ortodoxa, respectivamente, e quem criaram uma área de proteção autônoma no Monte Líbano, após os massacres de 1860, cometidos contra os cristãos, pelos drusos, com a conivência do Império Britânico.
 
É importante citar as palavras de Alexios Jafet, sobre a relação russa pré-revoluncionária com a família Jafet, no livro de Lina Saigh Maluf: “quantos barões e baronesas russos, “mencheviks” (russos brancos que se opunham aos bolcheviques), recebemos na casa de mamãe...”. 
 
Vale ressaltar que os Jafet, durante a primeira metade do século passado, sustentaram financeiramente, através de uma longa rede de negócios, a distribuição de tecidos na região da Vinte e Cinco de Março. Deve-se isto, à Fiação, Tecelagem e Estamparia Ypiranga Jafet, e aos empréstimos que concediam para outros patrícios fossem distribuir tecidos no interior do Brasil.
 
Já na década de dez, a família foi uma das primeiras a praticar a filantropia. Isto é, além de idealizadora e de doadora de grandes somas, desde o início das atividades do Hospital Sírio-Libanês, em 1921, foi fundadora de outras associações, como a Liga Patriótica Síria, cujo Presidente era Nami Jafet, tendo sido constituída com o objetivo de obter esforços diplomáticos para encerrar o fim do jugo turco-otomano sobre as terras sírio-libanesas, bem como Presidente da Associação dos Ex-Alunos da Universidade Americana de Beirute.
 
A Família Jafet também foi fundadora e participou de diversas associações como a Igreja Ortodoxa Antioquina do Brasil, o Clube Sírio, o Clube Atlético Monte Líbano (Nagib Jafet doou mais de um terço do terreno deste Clube), o Clube Monte Líbano do Rio de Janeiro, a Liga das Senhoras Ortodoxas, a Catedral Metropolitana Ortodoxa, a Associação Cedro do Líbano de Proteção à Infância, a Câmara de Comércio Sírio-Libanesa, hoje, Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, bem como contribuiu com a urbanização do bairro do Ipiranga, construindo casas para centenas dentre seus mais de cinco mil operários, quatro pavilhões no Hospital Leão XIII, com a construção da Escola Cardeal Motta, dentre tantas outras instituições que receberam sua colaboração. 
 
Houve também uma vultosa doação feita pela esposa de Basilio, Adma, e suas filhas, Angela e Violeta, quem doaram os dois pavilhões de Física Experimental e Superior, na USP, em nome de seu marido e pai, Basilio Jafet. Angela foi casada com Eduardo, filho de Benjamin, e Violeta, casada com Chedid, filho de Nami. 
 
Violeta Jafet foi uma figura imprescindível para que a área onde se localiza o Hospital Sírio-Libanês fosse devolvida à Sociedade Beneficente de Senhoras. Durante quase duas décadas, esteve em mãos do Governo Estadual para que se transformasse em Escola de Cadetes. Da mesma forma, sem suas iniciativas, junto aos médicos e empresários da colônia, o Hospital da forma em que foi idealizado, cessaria de existir.
 
Em 1956, a família Jafet doa um terreno situado na rua Xavier Curado, onde foi construído o primeiro ginásio esportivo de propriedade do Clube. No início da década de 60, o então presidente Mário Telles com a ajuda da família Jafet, adquiriu o terreno da atual sede, na rua do Manifesto, 475. Carlos Jafet já tinha sido seu presidente, e de personalidade carismática, foi patrono do que durante muito tempo foi a elite do futebol, em São Paulo. 
 
O título “Cavalheiro” (Chevalier de l’Ordre Nationale da Légion d’Honneur), concedido a Nami e a Basilio Jafet deve-se às condecorações que o Governo Francês, ofertou-lhes, por suas contribuições aos esforços de guerra francês, durante a Primeira Guerra Mundial 
 
 Houve também contribuições no ramo da pesquisa, no final da década de 50, pelo Grupo Jafet, em que um prêmio era anualmente conferido a um promissor cientista brasileiro, que incluía uma bolsa de estudos com o nome de Professor Nami Jafet. Saliente-se, ainda, que após a morte de Nami Jafet, em 1923, seus filhos e esposa, Afife, doaram o que é hoje uma das maiores bibliotecas do Líbano - a AUB (American University of Beirut) Nami Jafet Memorial Library, que contém mais de 150.000 volumes de obras, e é um centro de excelência em um oásis de calma, em Beirute, para pesquisa científico-universitária.
 
Vale ressaltar, também, que na crise de 29, pessoas que haviam tomado empréstimos dos Jafet tiveram suas dívidas perdoadas. Os Jafet nunca causaram falências por protesto de duplicata, em uma época em que centenas de indivíduos se suicidaram por causa de bancarrotas. Ou seja, não eram gananciosos, não eram agiotas. Eram filantropos!
 
Embora o bairro do Ipiranga, desde o século XIX, já contasse com uma grande família de filantropos, como a do Conde José Vicente de Azevedo, patronos da Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga, o processo de industrialização, e a consequente urbanização do bairro deram-se, em grande parte, ao empreendedorismo da Família Jafet. 
 
Em 1907, o bairro foi escolhido pela sua localização: era passagem para o litoral, e porque cogitava-se a implantação de uma ferrovia na região, ligando São Paulo ao porto de Santos. 
 
Vale ressaltar o relato de Alexios Jafet, no livro Memórias da Imigração, escrito por Lina Saigh Maluf:
 
 “O caminho para o Ipiranga era em carro-de-boi. Incumbiu-se Benjamin, amante de engenharia e construção, de lá se instalar (habitou uma casa provisória na Rua Bom Pastor, antes de sua residência definitiva, na Rua Xavier Curado, ter sido concluída em 1912), preparar o terreno da olaria, e ser o responsável direto pela construção da planta industrial.
 
O primeiro rebate que fizeram foi de quatro alqueires. 
 
O capital social proveio do comércio. Não lançaram mão de empréstimos. 
 
Em uma época em que não existiam sequer leis trabalhistas, Benjamin, responsável pela parte administrativa da indústria, e consciente das questões sociais, instalou uma farmácia, e incumbiu de médicos, como Dr. Wadih Sáfady e Dr. Alexandre Yazbek, para, semanalmente, prestarem cuidados técnicos específicos aos operários. 
 
A indústria era uma sociedade anônima, composta por quatro irmãos muitos unidos - Nami, Benjamin, Basílio e João -, e muito ligados uns aos outros. Logo de início, é considerada a terceira maior tecelagem do Brasil, após as tecelagens dos grupos empresariais, ligados às famílias Matarazzo e Crespi, mas, logo em seguida, e por quase toda segunda metade do século XX, até o término de suas atividades, passou a ser a segunda tecelagem do Brasil, e um dos maiores conglomerados fabris do hemisfério sul. Nela, adentrava-se uma linha de bonde, a primeira, no Ipiranga, instalada pela Light, chamada "Fábrica".
 
Nami era o responsável pela parte financeira da indústria. Com seu falecimento, em 1923, sucedeu-o nessa tarefa, seu irmão Basílio. A partir de 1929, passaram a também atuar na indústria, os dois primogênitos de Nami: Chedid e Nagib. Elias e Eduardo, primogênitos de Benjamin, passaram, concomitantemente, ao preparo para a assunção do comando operacional da empresa, antes reservadas ao pai, consistindo, respectivamente, na administração e na produção (fiação, tinturaria e estamparia). Isto é, a direção passou ao cargo de dois filhos de Nami, e dois filhos de Benjamin. Ainda, em 1946, Eduardo Jafet realiza longa viagem aos EUA, onde adquire planos para a modernização da indústria, dotando-a do que havia de mais moderno nos EUA, até então. Hoje, as instalações são sede do Arquivo Geral do Foro Central de São Paulo.
 
Os patrões da indústria eram tão queridos que quando da morte de três de seus diretores-fundadores, Nami (1923), e Benjamin (1940), e Basilio (1947), milhares de operários em revezamento, carregaram seus caixões da “Grande Fábrica”, como era conhecida a indústria dos Jafet, à época, até o Cemitério da Consolação - há mesmo três livros confeccionados para registrar cada um desses episódios -, passando pela Rua 25 de Março, totalmente enlutada. 
 
A Vila Operária, para abrigar os funcionários vindos do interior, foi construída em duas fases distintas: a primeira delas, em dois ou três anos, prédios de quatro andares, em uma área de oito mil metros quadrados de terreno. Na segunda fase, outra vila de casas individuais. As duas zonas, uma a quinhentos, outra a dois mil metros do portão principal da fábrica. 
 
Foram os antigos palacetes da Família Jafet construídos quase todos com materiais importados, como pinha-de-rigo para a madeira dos telhados -,  pois, não havia disponível material de construção no País. Os palacetes que restam são quatro, tombados, dentre uma dezena que existia, de relevância arquitetônica. Segundo as palavras de Oswaldo Serra Truzzi, em Patrícios, Sírio e Libaneses em São Paulo, Ed. Unesp, 2008, era o conjunto de casarões dos Jafet, no Ipiranga um protótipo da Avenida Paulista, recém-habitada por árabes.
 
Nos anos quarenta, filhos de Nami Jafet fundam a Mineração Geral do Brasil, em Mogi das Cruzes, dirigida por Roberto Jafet, doutor “honoris causa” por uma universidade inglesa.
 
Ricardo e Gladstone foram banqueiros. Gladstone Jafet foi Presidente do Banco do Estado, enquanto que Ricardo, Presidente do Banco do Brasil, o Banco Central da época.
 
Os Jafet também doaram diversos quadros de célebres pintores europeus ao Masp. Assis Chateaubriand mantinha ligações com Basilio, Adma, Ricardo e Gladstone.
 
Alexios e Emilio Jafet fundaram outra indústria no mesmo bairro, o Lanifício Jafet.
 
Waldomiro Jafet foi médico-cardiologista, formado pela Escola Paulista de Medicina, tendo prosseguido seus estudos na Alemanha do pós-guerra.
 
Por: Comissão das Comemorações do 125o. Aniversário da Presença da Família Jafet no Brasil
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