Ampliando horizontes

Por Rubens Cano de Medeiros De como um adolescente de 13 anos, iniciando o primeiro trabalho, passa a enxergar a Cidade, além das fronteiras de seu bairro. Anos 60, começo. O adolescente (eu), fazendo entregas no primeiro emprego (registrado), ultrapassa limites do bairro onde mora e depara com um gigante: a Paulicéia. Percorre-lhe, a partir daí, os quatro cantos. De ônibus, de bonde, de trem de subúrbio (Metrô? Coisa do futuro): começa a descobrir a diversidade paulistana. Os ônibus, ou são da CMTC (Prestes Maia muda o tradicional e originário grená para um alaranjado) ou são "particulares", como se denominavam as demais concessionárias das linhas. O moleque familiariza com os "ônibus elétricos", zunindo por então poucas linhas, para a Aclimação, Jardim Europa, Mooca ou Santana ou Gentil de Moura... Pitoresca é a última linha de bondes abertos dos dois lados: 24 — Praça Clóvis / Belém. Já a 101 — Praça João Mendes / Santo Amaro, além-Biológico é verdadeira "linha de trem": linda! Mas os bondes agonizavam. Os derradeiros, morrem — derradeiramente — em 1968, no Largo Treze. Trens de subúrbio são quatro grandes trechos: I — Santos-a-Jundiaí (Luz), belos carros de aço inoxidável BUDD, prateados; II — Central do Brasil (Roosevelt), trens azuis, linhas tronco e variante, ambas para Mogi; III — Sorocabana: trens elétricos japoneses, verdes (Júlio Prestes), e Maria-Fumaça!, na Cantareira (João Teodoro) — que bifurca na Estação Areial. Nada disso o cara conhecia... Osasco, por pouco tempo, ainda é bairro, e para lá o sacolejante e barulhento papa-fila FNM, via Estrada Velha de Itu. Aliás, a cidade tem muitas "estradas" na malha urbana: do Mandi, do Cursino, de São Miguel, de Itapecirica, Velha São Paulo-Rio..., sob jurisdição do DERMU. Marginais, dos rios? Fragmentos. Arranha-céus? Quase que só no Centro. No Tietê, remadores. Nos "arrabaldes", chácaras de flores e hortaliças, circos, parquinhos de diversão. Túnel? O Nove de Julho, só. Pontes e viadutos? Alguns. Muitas porteiras, nas linhas de trem. Rodoviária da Júlio Prestes: formigueiro — de pessoas e ônibus. Conhecendo São Paulo... O aqui "protagonista" se surpreende com o coração fabril de Piratininga: São Paulo produz de tudo!: de brinquedos Estrela a caminhões Ford. Multidão de chaminés. Barulho, apitos. Fumaça que é, simultaneamente, progresso e poluição. Indiscutivelmente, São Paulo é (ou são) as chaminés. Aromas: Canindé e Lapa recendem a biscoito; Belém e Mooca, a café; no Brás, cheiro de cigarro; no Brooklin, olfato de chocolate Lacta. Teares ruidosos no Ipiranga, no Tatuapé, no Belém. A imponente chaminé da Brahma, no Paraíso, é branca e tem cheiro característico. Uma longa avenida, todinha de fábricas e armazéns: Presidente Wilson. Matarazzo, das mil fábricas, é colossal n′Água Branca. N′Água Funda, uma siderúrgica dentro da cidade: Aliperti. Já na outra "água", certamente, também fábricas: Água Rasa. Em Perus, gigantesca fábrica de cimento e sua linhazinha de trem, de bitola estreita. São Miguel Paulista exibe a grande Nitro-Química. Indústrias encravadas no Pari, na Casa Verde, em Vila Maria, Catumbi, Ponte Pequena, Barra Funda, no Anastácio, em Jurubatuba, Parque Novo Mundo... Enxame de operários, homens e mulheres de macacões de brim azul semeando e colhendo trabalho. Muitas fábricas — constata o moleque — têm "cara" sisuda, outras são de tijolinhos aparentes. Grandes ou pequenas, são a São Paulo pulsativa, "maior parque industrial da América Latina". Há muitas ruas de paralelepípedos, outras tantas de terra e sem iluminação. Bairros afastados que parecem cidadinhas do interior, pracinhas com coretos. Grandes vazios e vegetação. Chãos de terra que abrigam campos de futebol de várzea, demarcados por linhas imaginárias e traves sem rede. Pontilham o céu da Zona Norte os teco-tecos do Aeroclube, que brotam, como libélulas, do Campo de Marte. No lindíssimo Congonhas, "mais um Caravelle da Cruzeiro do Sul, a bordo do Brasil", garante o jingle. Imortais DC-3 com a inscrição "Vôe pela Real" (com acento). Lampejo (meu) de memória: um pouco do mensurável (pois São Paulo já era infinita), daquilo de que me recordo, aos treze anos. Quando comecei a fazer entregas nas ruas. Para longe de Vila Mariana, onde morava. Vila Mariana de ruas orladas por tipuanas; das chácaras de portugueses, onde hoje se enfurecem os veículos, na 23 de Maio; do campo do Olimpicus "do Paraíso", Tomás Carvalhal com Oscar Porto (de cujo barranco se avistavam os aviões pousando no xadrez de Congonhas). Da Estamparia Caravelas, dos casarões e dos lindos sobradinhos, casas com quintais... E da Estação dos Bondes! E do ranger das rodas nos trilhos, dos bondes camarões que desciam a Avenida Rodrigues Alves — do Largo Dona Ana Rosa até o Instituto Biológico, rumo de Santo Amaro. Ruído, então, possível de ser ouvido, por exemplo, à noite, quando trazido pelo vento — e com a cumplicidade do silêncio. Em tempo: eu morava quase a um quilômetro daquela Avenida. Viva São Paulo!

 


 

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