Fatos Históricos 4
Um grande bulevar, carregado de simbolismo, ligando a praça do Povo ao Parque da Independência, no Ipiranga, é um dos projetos urbanísticos mais ousados da cidade.
Foi criado por um grupo de engenheiros e arquitetos da Universidade de São Paulo - USP, com a idéia de ser inaugurado em 2022, durante as festas do bicentenário da Independência. Mas, entre a concepção e a sua concretização, muitas etapas ainda terão de ser vencidas.
O projeto contempla uma área de três quilômetros quadrados, a partir da praça Alberto Lion, junto à avenida do Estado, próximo às instalações do Comando da Aeronáutica.
Uma praça elevada ocuparia o espaço entre esse local, rebatizado de praça do Povo, e a rua da Independência. A partir daí, a construção volta ao nível do solo e continua em direção do Monumento do Ipiranga, ocupando toda a extensão da avenida D.Pedro I.
A prioridade de todo esse espaço está destinada aos pedestres. O tráfego de veículos (que hoje ocupa quatro faixas) seria reduzido a apenas duas pistas laterais e limitado a veículos leves. Ônibus e caminhões seriam desviados para trajetos alternativos.
No canteiro central surgiria o bulevar, todo ajardinado, que os autores do projeto batizaram de Calçada do Povo.
Haveria restrições para o comércio e imposição de coeficiente máximo para construções ao lado do bulevar.
Haveria também remodelação da área onde se ergue o Monumento do Ipiranga, que passaria a se chamar praça da Harmonia, com novo tratamento paisagístico.
Uma grande novidade seria a construção de duas alas laterais, para serem integradas ao Museu do Ipiranga. Dessa forma, o Museu seria ampliado e acrescido de áreas de exposição e técnicas, transformando-se num grande pátio aberto. As duas alas, isoladas, fariam comunicação com o edifício central por meio de passagens subterrâneas.
O bosque que ocupa a parte posterior do Museu também receberia novo tratamento paisagístico e ali seria erguido um enorme mastro, para sustentar a bandeira nacional.
Na outra extremidade, na praça do Povo, a equipe da USP previu a construção de um pórtico monumental, com referências aos elementos naturais: o ar, a terra, a água e o fogo. A simbologia envolve todo o projeto: da praça, que é do Povo, abre-se o caminho para a Independência. “Os símbolos da nacionalidade carecem de revisão, valorização e restauração para que possam ser colocados na ordem do dia, resgatando a dignidade e a auto-estima nacionais, tão deprimidas nos tempos que correm”, dizem os autores na apresentação do projeto.
Fonte: Diário do Comércio
______________________________________________________________________
O “Altar da Pátria”
A escolha do local para a implantação do Monumento à Independência, no bairro do Ipiranga, se baseou na tradição de que D. Pedro I teria proclamado a Independência do Brasil às margens do riacho de mesmo nome. Inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, o monumento, de autoria do escultor italiano Ettore Ximenes, remete a personagens e episódios da história oficial do processo de Independência do Brasil.
Para reforçar ainda mais o significado daquele local como o do nascimento da nação brasileira, projetou-se a construção de uma cripta no interior do monumento, que abrigaria a Capela Imperial. Nela repousariam, definitivamente, os despojos do primeiro Imperador e de Dona Leopoldina, Imperatriz do Brasil. Em 1952, a cripta foi inaugurada, considerada, ainda, um "cenotáfio", um túmulo vazio, uma vez que os despojos do Imperador e sua esposa não se encontravam ali. Posicionada na parte frontal do Monumento à Independência, voltada para o Riacho Ipiranga, a pira do chamado "Altar da Pátria" foi acesa, simbolizando o amor incondicional à Pátria.
Somente dois anos depois, os despojos da Imperatriz Leopoldina foram transladados do Convento de Santo Antonio, no Rio de Janeiro, sob os cuidados do Instituto Histórico e Geográfico. A cerimônia integrou as comemorações do IV Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo. Da Catedral da Sé, o ataúde foi levado ao Ipiranga seguido por um grande cortejo. Houve quem argumentasse que não era necessário perturbar o repouso eterno da Família Real, mas prevaleceu a idéia de reafirmar a sacralização do Altar da Pátria.
Os despojos de Dom Pedro I, por sua vez, foram transladados do Convento de São Vicente de Fora, na cidade do Porto, Portugal, em 1972, como parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência, em solenidade transmitida para todo o país via satélite. Mais tarde, também os restos mortais de Dona Amélia de Beauharnais, esposa de Dom Pedro I em segundas núpcias e Imperatriz do Brasil, foram transladados para a Capela.
O Monumento à Independência também abriga em seu interior um espaço de exposições, inaugurado no ano de 2001, administrado pela Divisão de Iconografia e Museus do Departamento do Patrimônio Histórico.
A pira e a manutenção constante de sua chama despertam a curiosidade das pessoas. Afinal, como e quando se acende e se apaga a pira? Como a chama simboliza o amor eterno pela Pátria, nunca deve se extinguir. Para tanto, o sistema de alimentação da chama é feito por gás encanado, mantido sob o acompanhamento da COMGÁS (Companhia de Gás de São Paulo), cujos técnicos devotam grande atenção e carinho à tarefa. O sistema utilizado é tão seguro que, nos últimos dez anos, a chama se apagou uma única vez, resistindo às mais adversas condições climáticas.
Departamento do Patrimônio Histórico
_________________________________________________________________________
A Linha de Bonde Heliópolis, foi inaugurada em 1928. Inicialmente o bonde era identificado como Tabuleta X. No ano de 1935 passou a ser identificado pelo número 21. Essa linha foi extinta em 05 de novembro de 1952. A extensão da linha era de 18,6 Km. ( Praça João Mendes, Largo 7 de Setembro, Ruas da Glória, Lavapés, Largo do Cambuci, Independência, Av. D.Pedro I, Tabor Bom Pastor, Sorocabanos, Silva Bueno, Almirante Delamare, Praça Barão do Belém) Em 14 de julho de 1945, o ponto inicial foi mudado para a Praça João Mendes.
___________________________________________________________________
A Linha de Bonde Ipiranga número 4, foi inaugurada em 02 de março de 1903. Tinha sete carros funcionando e percorria uma extensão de 14,2 Km. (Largo da Sé, hoje Praça da Sé, depois seguia pela Rua Marechal Deodoro, Praça João Mendes, Largo 7 de setembro, ruas da Glória, Lavapés, Avenida D. Pedro I e Bom Pastor, fazendo seu ponto final em frente do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora). Em 1920 o itinerário foi estendido a partir da Rua Lavapés, Largo do Cambuci, Avenida Independência, Avenida D. Pedro I, ruas Tabor, Bom Pastor, Moreira e Costa e Av. Nazaré. Em 21 de setembro de 1931 a linha passou a entrar direto pela Praça da Sé. Em 14 de julho de 1945 mudou seu ponto inicial na Praça João Mendes
________________________________________________________________________
Na década de 30, quando foi calçada pela primeira vez a Avenida D. Pedro I, os terrenos situados naquelas imediações podiam ser adquiridos por 300 réis o m2 . Lá pelos lados da rua Silva Bueno ou alto do Ipiranga, valiam um tostão ou 200 réis.
Em 1940 os terrenos já estavam um pouco mais valorizados. Após o lançamento da pedra fundamental Hospital Leão XIII , obra do padre Ballint, assinalou-se o início do progresso daquela região da "colina histórica" onde sobejavam campos de futebol.
Os lotes naquele tempo local outrora considerado um ermo, foram colocados no mercado a preço de 2.500 cruzeiros (na época dois contos e quinhentos mil réis), pagos em prestações.
Em 1956, um lote de terra c/ 330 m2 , na rua Vasconcelos Drumonnd, custava 65 mil cruzeiros com pagamento facilitado.
___________________________________________________________________
Nas cercanias de Vila São José, onde ainda mantinham-se em atividades sitiantes e chacareiros, as terras valiam menos porque as enchentes, a lama, o mato crescido, o mau cheiro e as ruas esburacadas e sem iluminação, não davam condições de melhoria em curto prazo. Esta região começou a valorizar quando pavimentaram as marginais do rio Ipiranga.
___________________________________________________________________
No Parque da Independência e arredores de sua parte alta, a valorização dos terrenos foi mais rápida. Membros da família Jafet, nos anos vinte, quando a rua Bom Pastor não estava calçada, construíram os primeiros palacetes encimados por miranetes, (típicas casa da "elite" do bairro) hoje quase todas ocupadas por escritórios de indústrias.
__________________________________________________________________
População do Ipiranga
1872 - 31.385
1890 - 64.934
1900 - 239.820
1910 - 375.324
1920 - 12.064
1934 - 40.825
1950 - 60.563
1960 - 114.744
1970 - 171.338
1980 - 300.000
__________________________________________________________________
Dentre os imigrantes que compunham as levas que, com base no ano de 1891, desenvolveu-se com mais rapidez uma boa parcela deu preferência ao Bairro do Ipiranga, principalmente os italianos, porque na antiga paragem sobejavam chácaras, sítios e pomares em maiores quantidades nas proximidades do rio Ipiranga e Tamanduateí, cujas terras eram mais férteis devido às constantes enchentes.
_________________________________________________________________
As duas famílias de imigrantes (Jafet e Samarone) criaram mais de 10 mil empregos diretos durante sua passagem pela região.
_____________________________________________________________________
Além dos rios Tamanduateí e Ipiranga, a região dispõe de inúmeros córregos: Cacaréco, Jaboticabal, Moinho Velho e Capão do Reino, parcialmente canalizados.
________________________________________________________________
O Caminho do Mar, denominação estabelecida pelos brancos, era uma antiga estrada que ligava São Paulo a Santos e São Vicente passando por outros municípios, já palmilhada pelos índios quando aqui aportaram os primeiros europeus.
Havia muitos atalhos até o alto da Serra, originados pelo uso constante de diversas tribos acampadas nos arredores de Piratininga e cercanias, mas um único caminho que descia a encosta continuando depois em terreno plano, até atingir São Vicente e posteriormente Santos.
Os nativos caminhavam a pé ou se serviam de canoas, pois não havia cavalos na América e no século XVI com o uso continuado por tropeiros e viajantes, que se dirigiam à baixada santista pelo caminho mais próximo, formou-se o Caminho do Mar, então já uma estrada inicialmente partindo das proximidades do local onde seria proclamada a Independência.
Essa estrada durante vários séculos, foi a única que serviu aos viajantes que demandavam as praias, saindo de São Paulo ou aos que atingiam o Porto de Santos por via marítima com destino à esta Capital.
_____________________________________________________________________
Até fins do século XIX, o Ipiranga foi considerado apenas uma paragem porque, por essas terras passavam tropeiros e viajantes que ali pousavam para prosseguir viagem no dia seguinte, dirigindo-se à cidade dos Andradas ou à pacata vila dos Bandeirantes.
Já na segunda metade do século XVI, essa região era citada como lugar de muitas chácaras e fazendolas, onde também havia pousos para viajantes, porém poucos moradores.
O do Moinho Velho Bairro mais antigo do Ipiranga, e do "Ciclo do Tropeiro", no parque da Independência, são os pousos primitivos, de acordo com anotações históricas.
___________________________________________________________________
Na década de 1860, a viagem São Paulo a Santos já podia ser feita em seis horas, denominando-se o trecho do planalto de Estrada do Vergueiro, em homenagem a José Vergueiro que empreendera novas obras visando à melhoria e dando-lhe condições de estrada de rodagem.
__________________________________________________________________
A familia Fernandes
Tendo como profissões comerciantes e padeiros, inauguraram em 1953 uma padaria, a cinquenta metros do Cerealísta Sto.
Antonio, (hoje Supermercado Joanin) na rua Riga, esquina com a rua do Chaco.
Foi inaugurada a padaria ¨Peninsular¨, com a benção do Padre Mourão, da Paróquia Santuário São Vicente de Paulo.
Estiveram presente na inauguração á convite dos irmãos, familiares, amigos e alguns políticos da época.
O pão benzido pelo Padre foi distribuído a todos que se encontravam no local.
Os tempos eram difíceis, como já mencionado acima, não havia luz, água e esgoto, as ruas eram de terra, porém um ano antes da inauguração da padaria chegou a luz, os postes eram de troncos de árvores.
Os Irmãos se desempenharam para entregar o pão a toda comunidade, pois ainda era época em que muitos faziam o pão em sua própria casa, havia pequenos bares e armazéns, porém em muitos não havia o pão para favorecer as pessoas.
A padaria chegava a desmanchar em média 20 (vinte) sacos de farinha por dia.
Nas épocas de chuvas colocavam o cesto na cabeça, para atravessar alguns córregos, pois as enxurradas levavam embora as pequenas pontes de madeira e nunca deixaram faltar o pão tão desejado e querido por todos.
Sempre favoreceram a comunidade com seus preços baixos e ainda com cadernetas "de fiado" aos menos favorecidos.
A vinda do Cerealísta e da Padaria incentivou muitos a comprarem terrenos, construírem suas casas nas imediações e a vinda de novos comerciantes.
Os irmãos Fernandes além de servirem o povo, ajudaram a Paróquia de São Vicente De Paulo.
Hoje, no local, não há mais a Padaria. O pequeno prédio foi dividido e locado a vários comerciantes.
______________________________________________________________________
A família Dal Bem
Alguns anos depois em 1961, o Sr. Rubens Dal Bem Inaugurou o Depósito de Materiais de Construção na Via Anchieta, próximo a esquina do Cerealísta Sto. António, fazendo as entregas em carroça.
O terreno era alugado, depois de algum tempo comprou um terreno na rua do Chaco, ao lado do depósito já funcionando.
Na época sofreram para entregar os materiais, quando chovia a situação era precária dificultando as entregas, tanto se fosse de Carroça ou de caminhão, pois acabava encalhando. Construiu sua nova sede e permaneceu no local por muitos anos, mudando posteriormente para a rua Riga, na mesma proximidade da Via Anchieta, onde hoje é um lindo Buffet, pertencendo à sua família.
Os Dal Bem também colaboraram com o progresso do bairro e imediações.
________________________________________________________________
A via Anchieta, estrada que liga os municípios de São Paulo a Santos, passando por São Bernardo e outras cidades menores, já foi a estrada mais movimentada de todo o país, antes da inauguração da Via dos Imigrantes. Inaugurada na década de cinqüenta, era considerada uma das mais perfeitas do mundo, projetada para substituir o obsoleto Caminho do Mar, traçada na época do Império (1842), e que naquele tempo denominava-se "Estrada da Maioridade", em homenagem a D. Pedro II, substituindo-se por sua vez a "Calçada de Lorena", inaugurada em 1792. Até o quilometro 13, na divisa com Rudge Ramos (Município de São Bernardo do Campo), está situada no bairro Ipiranga.
Atualmente, isto a partir de sua inauguração, A via Anchieta, até a divisa de São Bernardo do Campo, reúne a maior concentração de industrias do bairro Ipiranga, e inúmeros Bancos que ali mantém suas agências.
O Parque industrial da "antiga paragem tão distante", depois que a estrada foi inaugurada, tornou mais fácil e menos dispendioso o escoamento de produtos industrializados remetidos no porto de Santos, desenvolveu-se mais rapidamente e ensejou o surgimento ininterrupto de fábricas ao longo do antigo Caminho do Mar. Importantes firmas estão ali localizadas, do marco divisório, quer seja na parte industrial ou comercial.
__________________________________________________________________
A estrada do Curral pequeno, atual AV. Nossa Senhora das Mercês, era assim chamada porque nela estava instalado um pequeno estábulo que se tornou conhecido por ser o único, naquelas redondesas, durantes muitos anos acrescida de outros com o correr do tempo, todos pequenos proprietários de gado e vacarias, instalados ao longo dessa passagem que ligava ao município de São Bernardo.
________________________________________________________________
Era intenção, na época, da " companhia de Ferro Carril do Ypiranga, construir uma linha de bondes para servir o bairro da Independência, cabendo ao engenheiro Luiz Pucci o levantamento da planta, partindo a estrada do eixo do Museu com dupla vantagem de prestar-se ao serviço de bondes e de já ser uma parte da futura Avenida no espaço compreendido entre o Córrego do Ypiranga e o entroncamento da estrada da Glória, contendo 1189 metros.
________________________________________________________________
As dificuldades existentes na época para a implantação de linhas de bonde na região do Ipiranga, eram o Morro da Pólvora (Vila Monumento) e os lamaçais da Rua da Independência, onde devia ser feito um aterro de três metros para serem os trilhos assentados, impedindo a su8a construção.
________________________________________________________________
A 27 de dezembro de 1918, conforme Lei nº 1631, o bairro do Ipiranga foi elevado a distrito de paz, datando dessa época os primeiros progressos verificados em seus 15,44 km de area distrital. De paragem a bairro suburbano, visto de um modo geral até a instalação dos bondes elétricos que principiaram a funcionar em 1900, ainda em fins do século passado era citado como lugar ermo e solitário, por ser pouco habitado e semi-deserto.
______________________________________________________________
Foram 12 as primeiras ruas que ganharam nome na região do Ipiranga, de acordo com planta de loteamento, das quais comente uma não preserva sua primitiva denominação, todas ligadas a Independência e aos anseios republicanos, que são seguintes: Fico, Grito, 1822, Cisplatina, Municipalidades, Juntas Provisórias, Gonçalves Ledo, Monumento (praça), Guarda da Honra, Independência, Manifesto e Estrada do Ipiranga.
_______________________________________________________________
Os latifúndios (sesmarias) em cujas terras rasgaram-se em caminhos que partiam do Lavapés ligando-se a Vila Moraes, passando pelo Ipiranga pertenciam ao bispo Dom Mateus Pereira, conde Vicente de Azevedo e Antonio de Moraes, de acordo com o mapa elaborado por Odilon Pereira Matos. A extensão do primeiro, que tinha início núcleo da Glória onde esteve em atividade uma das mais produtivas chácaras de São Paulo, até fins do século passado, ia até o riacho Ipiranga. Dali para diante, até as regiões da divisa com o bairro da Saúde eram do Conde, pertencendo ao coronel Moraes a regiões que se estendia mais além.
________________________________________________________________
Na quadra, entre as ruas Patriotas , Silva Bueno, Xavier Curado e Lino Coutinho, esteve em atividade antiga chácara, assim como a de Vila Carioca, espremida entre as ruas Campante, Lucas Obes e 1822, desapropriada em 1945.
______________________________________________________________
Das incontáveis chácaras situadas no Ipiranga, tem-se notícias somente das principais, ou das que tornaram-se mais conhecida, tal como a "Chácara do Diogo"que funcionou até meados dos anos trinta à Avenida Tereza Cristina (atual Dr. Ricardo Jafet), local onde instalou-se a Associação Portuguesa de Desportos.
_______________________________________________________________
O "Grito de Dom Pedro", à margem de um límpido ribeirão que serpenteava entre as matas verdejantes da colina que se tornaria histórica, a 7 de setembro de 1822, tornou-se conhecido como "Grito de Ipiranga", e famoso pelo fato que representava perante as nações, principalmente as colônias latino-americanas que lutavam para se verem livres do jugo dos colonizadores.
E esse grito estivera preso, sufocado em sua garganta desde 9 de janeiro do mesmo ano quando,da sacada do palácio, no Rio de Janeiro, D.Pedro dissera ao povo que não tencionava regressar a Portugal exclamando o celebre "Fico".
Talvez a colina não fosse tão verdejante, e no chão pululassem vastidões de barbas de bode à beira da estrada velha que conduzia ao Caminho do Mar, e dali para a Calçada de Lorena por onde passara D.Pedro e sua famosa "Guarda de Honra", de regresso da cidade de Braz Cubas, onde fora visitar a família dos Andradas.
E quem sabe, bem mesmo as circunstâncias que originaram a cena que antecedeu ao grito de "independência ou morte" tenha-se desenrolado da maneira captada pelo gênio artístico de Pedro Américo, fixando na tela com tamanha vida o instante supremo da ação e do grito que tornou o Brasil independente.
Existem certas controvérsias, entre historiadores, "não escapando um pormenor, um ínfimo detalhe que não fosse respigado, rebuscado em se tratando do Sete de Setembro", principalmente sobre os fatos que o antecederam.
Alguns alegam que a montaria de D.Pedro era um cavalo zaino, enquanto outros afirmam que era uma besta baia gateada.
E que o príncipe Regente, afastando-se sutilmente da grave e delicada situação política existente no Rio de Janeiro, aproveitara-se disso para, seguindo orientações do temível alcoviteiro Francisco Gomes da Silva, o "Chaiaça", com o pretexto de dirigir-se a Santos em visita à família de Jose Bonifácio, usando de subterfúgio em seqüência a um plano elaborado por seu secretário, achegara-se de um casarão em Penha de França, antigo pouso de viajantes ns proximidades de São Paulo, residência de Campo do coronel João de Castro, pai de uma encantadora moça paulista a quem desejava conhecer, e que um muito influenciaria nas decisões do futuro imperador agraciada com o titulo de Marquesa de Santos.
Gritos que fizeram mudar o curso da História, das batalhas, das ações já houve muitos.
Seria difícil enumerá-los a todos, quase impossível.
Gritos de heróis, proferidos pouco antes de morrerem, ou mesmo no momento da morte, existem aos milhares, estampados nas enciclopédias do mundo inteiro.
Gritos de homens que deixaram gravadas marcas profundas de seus atos, ou a que a estes antecederam. Cezar, ao ser assassinado por Brutus, também proferiu um grito.
Foi um grito emitido a baixa voz, ouvido apenas por aqueles que o rodeavam porem, com eco de repercussão universal. A frase de Monroe, "a América para os Americanos", também foi um grito, popularizando-se como um estigma da liberdade ara os povos da América. Tiradentes, o "Mártir da Inconfidência" e precursor da liberdade o Brasil, sem emitir um único grito foi ouvido por todos os brasileiros, e o grito que não conseguiu dar ficou atravessado como um espinho na garganta de todos os patriotas até Sete de Setembro de 1822.
O que realmente importa, em se tratando do Sete de Setembro, é o que representou e representa o grito da "Independência ou Morte" para os brasileiros.
Com ele, caminhávamos de malas prontas rumo a emancipação política, que já nos esperava há longos anos, aguardando apenas que alguém abrisse a porta para que pudesse escapulir e sentar-se no trono do Brasil-Império.
Estivesse onde estivesse, a beira do regato limpando o suor do rosto (segundo relato de Manuel Marcondes de Oliveira e Mello barão de Pindamonhangaba), "... o Príncipe vinha afetado de uma desinteria que o obrigava a todo momento a apear-se para prover-se" - ou ainda -"a espera de seus guardas de honra que bebiam numa vendinha não muito distante - o fato é que, ao chegar o mensageiro Paulo Emilio Bregaro portando as cartas das Cortes de Lisboa, e mais as de Jose Bonifácio, Dona Leopoldina e o pintor Chamberlain, Dom Pedro, montado ou não, reuniu seus homens e com um grito declarou o Brasil separado de Portugal.
Era o inicio da independência que seria consolidada 9 meses depois, precisamente a 2 de julho de 1823. E a margem captada por Pedro Américo ficaria gravada na retina de todos, de como teria sido aquele instante supremo do grito "Independência ou Morte".
A comitiva de D.Pedro, ao sair do Rio de Janeiro, estava assim composta: tenente Francisco de Castro e Mello, Francisco Gomes da Silva, "o Chalaça", e os criados João Carlota e João Carvalho, além do Imperador.
Durante a viagem, em seu trajeto rumo ao Vale do Paraíba, naturalmente porque a noticia espalhara-se ou, quem sabe porque fora adrede preparada, em cada cidade onde a comitiva passava via-se engrossada por um ou mais componentes, oriundos de famílias paulistas, mineiras e fluminenses, todos fardados e alistados em janeiro daquele mesmo ano, a pedido de D.Pedro que invocara o brasileirismo dos militares que representavam aqueles estados. Esses moços não poderiam imaginar que se transformariam em "Dragões da Independência", como integrantes da "Imperial Guarda de Honra" formada durante a cavalgada rumo a terra dos bandeirantes.
E assim foi em Venda Grande, Santa Cruz, São João Marcos nas fazendas Três Barras, Pau d`Alho e nas cidades de Lorena, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí e Mogi das Cruzes, ate atingir Penha de França, a 14 quilômetros de São Paulo. Era o dia 24 de agosto, data em que, pela primeira vez, D. Pedro viu Maria Domitilia, a futura Marquesa de Santos
Fonte: bairrodoipiranga
________________________________________________________________
Benajmim, Basílio e Nami Jafet, imigrantes sírios, ganharam dinheiro mascateando de porta em porta, vendendo a prestações, e com o capital amealhado estabeleceram-se com a Companhia Ypiranga de Tecelagem e Estamparia, considerada a primeira indústria de alto porte instalada no Ipiranga.
________________________________________________________________
... E considerável o número de menores, a contar de cinco anos que se ocupam de serviços fabris, percebendo salários que começam por duzentos réis ao passo que não aumentam a falange dos menores vagabundos que infestam cidade.
________________________________________________________________
Durante 350 anos, a região Ipiranguista foi considerada improdutiva, abrigando apenas sitiantes chacareiros, criadores de porcos, de cabras e de vacas, ferreiros e tropeiros.
_______________________________________________________________
A grande maioria dos imigrantes constituía-se de italianos, e muitos deles focaram-se no bairro ou foram admitidos pelas fabricas recém-organizadas que se instalaram no Ipiranga.
_______________________________________________________________
Não foi somente o fator da imigração na região que motivou a instalação de importantes fábricas no Ipiranga, e sim também a linha férrea que facilitava o escoamento de cargas mais volumosas. Portanto, em poucos anos, o "bairro da Independência" , que antes de l890 era visto como paragem distante, passou a figurar como um dos principais centros produtores do município de São Paulo.
_______________________________________________________________
Em 1907, no terreno onde o italiano Marchesini possuiu e explorou Olaria durante 20 anos, foi fundada a Fábrica de Linhas Corrente Ltda por um grupo de ingleses. Esta firma, e mais a Companhia Ypiranga de Tecelagem e Estamparia, organizada em 1906, e a fábrica de Ferro Esmaltado Sílex, constituída em l909, formavam as três principais indústrias do bairro Ipiranga e mantinham em l915, cerca de l535 operários.
________________________________________________________________
O Instituto Sagrada Família, na Avenida Nazaré, 470, foi construído em 1895 e serviu como ponto de encontro de ex-escravos e parentes, em busca de asilo e socorro.
________________________________________________________________
O Grupo Escolar São José, datado de 1924, que ocupa a esquina da Avenida Nazaré com Rua Moreira de Godói; o Instituto de Cegos Padre Chico, fundado em 1928, do outro lado da esquina; o Juvenato Santíssimo Sacramento, datado de 1929, localizado na Rua Dom Luís Lasanha; e mais outros oito imóveis fazem parte da herança deixada por José Vicente de Azevedo.
_____________________________________________________________
O Conde José Vicente de Azevedo, de fato dedicou a sua vida às pessoas mais necessitadas. Todas as casas, prédios e imóveis que ele deixou pertencem à Fundação Nossa Senhora Auxiliadora, criada por ele, e só podem ser alugados para fins educacionais. Em 1935, ele foi nomeado conde romano pelo papa Pio XI, em razão das obras assistenciais que mantinha. Morreu nove anos depois. Estima-se que tenha auxiliado pelo menos 10 mil jovens, somente no internato.
_______________________________________________________________
O "Bonde a burro", um pequeno veículo com quatro bancos para transportar poucos passageiros, por motivos óbvios não podia ser destinado a grandes percursos, principalmente onde a topografia da área a ser percorrida apresentava-se com variadas elevações. Por esse motivo, e também porque nesse tempo havia lamaçais e pântanos em certos caminhos que demandavam o Ipiranga, eles não atingiam o bairro e tinham por limite o Cambuci.
_________________________________________________________________
O Ipiranga, em 1920, devido ao tráfego de bondes acusou uma população de 12.064 habitantes, saltando para 40.825 em 1934, ocasião em que os ônibus ainda eram escassos e precários, sem conforto e também mais caros, e por isso menos usados pela população.
___________________________________________________________________
Berço da Independência do Brasil, o Ipiranga já pode ser considerado um Museu a céu aberto. Referencia histórica da Cidade de São Paulo, o bairro agora conta 12 construções centenária tombadas pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) desde o dia 8 de maio de 2.007. A decisão reconhece o valor histórico, arquitetônico, paisagístico e urbanístico dos imóveis, que fizeram parte da herança do Conde José Vicente de Azevedo (1.859 / 1.944). Ele chegou a capital aos 16 anos e trouxe um sonho: amparar as crianças desvalidas.
Nos últimos anos do Império adquiriu uma grande gleba de terras na Colina do Ipiranga, sítio histórico da Independência. Em análise desde 1.993, os imóveis fazem parte da herança do Conde que, no começo do século passado, tinha entre seus bens 45 alqueires de terras no Ipiranga. Numa parte de seus domínios, ele construiu casas beneficentes, que atendiam a órfãos, doentes e cegos. É o caso do Instituto Padre Chico que em 18 de fevereiro de 1.928, recebeu a doação de um terrno feita pelo Conde Dr. José Vicente de Azevedo no Ipiranga , onde já existia um Pavilhão com o nome de Dom Antonio de Alvarenga. Em 27 de maio de 1.928foi lançada a primeira pedra do novo estabelecimento e em 4 de novembro de 1.929 lançou-se a primeira pedra da Igreja de Santana, oferecida por Dona Ana do Amaral Borges, onde guarda religiosamente os despojos mortais de Monsenhor Francisco de Paula Rodrigues – “Padre Chico”.
A direção do Instituto de Cegos “Padre Chico” foi entregue às filhas de caridade de São Vicente de Paula desde a sua fundação. A entidade proporciona hoje aos seus assistidos o verdadeiro amparo social e a assistência cristã, constituindo uma das mais belas e significativas obras de benemerência e filantropia da Capital.
Outros exemplos são o Instituto Cristóvão Colombo, de 1.895, só para meninos. Ali estudaram filhos de imigrantes italianos, de onde saíram advogados, médicos e comerciantes que ajudaram posteriormente a construir o bairro e o Internato e Semi-Internato Nossa Senhora Auxiliadora, edificação projetada pelo escritório Ramos de Azevedo.
Foram tombados, também, o Educandário Sagrada Família, o Instituto Maria Imaculada, o Colégio São Francisco Xavier, a Clínica Infantil do Ipiranga, o Seminário João XXIII, o Antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, o Antigo Grupo Escolar São José, o Antigo Juvenato Santíssimo Sacramento-UNESP e o Seminário Central do Ipiranga.
Segundo o bisneto do Conde Carlos Eduardo Francischini essas instituições não teriam existido se o Conde, para tanto, não tivesse contribuído pelo menos com o terreno. Para algumas, contribuiu com muito mais. “Acredito que todos os descendentes do Conde José Vicente de Azevedo que, assim como eu, conhecem a sua história sentiram boa dose de emoção diante da notícia do tombamento, pelo Patrimonio Histórico, das construções que abrigam as obras relacionadas na Resolução do COMPRESP. A primeira de suas filhas, Maria Angelina, teve como sua primeira filha a minha mãe, Maria Thereza. Portanto, sou seu bisneto. As mencionadas obras já haviam sido denominadas por alguém como “Os 12 Tabernáculos do Ipiranga”, porque foram erguidas, todas para maior glória de Deus.
Já o vice-reitor administrativo da UNIFAI Prof. Osmar Garcia Stolagli, disse que é importante que transformações ocorram para melhoria do nosso bairro, sejam nos sistemas de transportes coletivos, em edificações, áreas de ensino e na necessária prestação de serviços em geral. “Tais fatosorgulham os ipiranguistas de nascimento e de coração. Porém jamais poderemos deixar de lado nossos laços históricos, tradições e tudo mais que os antepassados nos legaram. Assim é que, nos alegram as notícias de que o CONPRESP definiu os processos de tombamento de diversos edifícios de instituições que marcam positivamente setores da região, principalmente no entorno da Avenida Nazaré. Convém lembrar também que essas intervenções, por vezes, causam problemas para as entidades impossibilitadas de expansão ou de não poderem arcar com investimentos de manutenção de suas propriedades, sem qualquer ajuda dos órgãos governamentais”, declara.
Os imóveis tombados:
Instituto Padre Chico – Companhia das Irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo – R. Moreira de Godoy, 456/572 (desde 1.928, quando o próprio padre Chico recebeu as terras do Conde, fez-se ali uma casa de auxílio a pessoas cegas. A construção do começo do século tem iluminadas galerias a que os arquitetos chama de arco pleno, que cercam um pátio interno bastante arborizado.);
Educandário Sagrada Família – Congregação das Irmãzinhas de Imaculada Conceição – Av. Nazaré, 470 com R. Barão de Loreto, 182 (a construção, de 1.895, teve projeto arquitetônico doado por Ramos de Azevedo. Em um dos prédios de tendência neoclássica funciona a 2ª. Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição e, no outro, um educandário. Os dois são interligados por uma Capela , onde esta sepultado o corpo de Madre Paulina (1865/1942). Ela morou naquele terreno, no Pequeno Abrigo para Filhos de Imigrantes e Escravos, de 1.918 até o dia de sua morte. A Capela da Sagrada Família, nome dado pela própria Santa Paulina (canonizada em Roma, em maio de 2.002), pode ser visitada de 3ª. à domingo das 9h às 19h.).
- Internato Nossa Senhora Auxiliadora – Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração – R.Dom Luís de Lasagna, 300 e Av. Nazaré, 810 (outro projeto de Ramos de Azevedo, de 1.896. Queixos despencam diante do imponente portão de ferro ornamentado do final do século 19. Mais glamour visual: linhas neoclássicas, jardim de rosas, canteiros geométricos versalheses).
- Antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas – R.Dr.Clóvis Bueno de Azevedo, 130 e R. Dom Luis de Lasanha, 176 (o tempo para diante dessa construção de 1.924 do padre salesiano e engenheiro Domingos Despiano. No tombamento, a referencia é ao piso de ladrilho hidráulico original, que forma um mosaico multicor e aos vitrais nas alamedas internas).
Antigo Grupo Escolar São José – Avenida Nazaré, 900 com R. Moreira de Godói, 226 (originalmente, o projeto de Ramos de Azevedo de 1.891 não incluía grades. A construção de alvenaria de tijolos pintados de amarelo permitia que as crianças corressem para a rua depois das aulas).
Instituto Cristóvão Colombo– Congressão Missionários São Carlos – R.Dr. Mario Vicente, 1108 (não espere se deparar com uma construção diante do número dessa rua. Passe o portal e siga sem medo pela viela de pedra. Pequenas travessinhas, repletas de casotas geminadas surgirão no caminho. No centro, está o Instituto Cristóvão Colombo, que em 1.995 iniciou atividade como orfanato. A fachada é composta por uma Igreja de linhas marcantes que mesclam os estilos neoclássico e art déco. Na década de 60, ela ganhou um anexo em linhas retas e azulejos coloridos. Mistura maluca? Há mais de frente para a Igreja, está o Seminário João XXIII, onde está a ordem dos Padres Carlistas. O tombamento nessa região faz menção às arvores do bosque em frente à construção. Ou seja, a imensa mangueira centenária está livre da especulação imobiliária).
- Seminário João XXIII – Congregação dos Missionários de São Carlos – R. Dr. Mario Vicente, 1108 (vide texto acima).
- Clinica Infantil do Ipiranga – Ordem dos Ministros dos Enfermos Camilianos – Av.Nazaré, 1361 (agraciado por uma das doações do conde, o pediatra Augusto Gomes de Mattos (1899/1978) transformou a clínica em referencia para o tratamento pediátrico na década de 40. Quem passar pela construção de 1.931, deve observar outras jóias os vitrais do russo Conrado Sorgenicht Filho, o mesmo responsável pelos do Teatro Municipal, e os azulejos de Antonio Paim Vieira, que fez os azulejos azuis da Nossa Senhora do Brasil).
Seminário Central do Ipiranga – Universidade Católica – Arquivo Metropolitano Arquidiocesana – Av.Nazaré, 1361 (dos arquivos do Conde consta que a construção de 1.943 é de Alexandre Albuquerque, que trabalhou no escritório de Ramos de Azevedo e foi responsável pela reurbanização da região de .Santa Ifigênia. São suntuosos os arcos e a rosácea na entrada da Igreja da Paróquia da Imaculada Conceição em estilo neoclássico. Como antes do período republicano a Igreja fazia a função de cartório, ali está grande parte dos registros civis da época).
Antigo Juvenato Santíssimo Sacramento – R.Dom Luís Lasanha, 400 com Av.Nazaré, s/n° (ladeado por árvores, entre elas uma araucária, o edifício eclético de Ramos de Azevedo de 1.929, é hoje ocupado pela Unesp. A capela alinhada ao lote tem arcos ogivais dignos de aula de arquitetura. O desenho é característico das abóbadas góticas.).
- Colégio São Francisco Xavier - Rua Moreira e Costa, 531 (o colégio foi construído em 1.925 e recebia imigrantes japoneses. Destaque para platibandas simples, mureta que tem função de esconder o telhado, entremeado por pináculos (pontos mais altos)).
- Instituto Maria Imaculada - Av. Nazaré, 711 (construção assimétrica da década de 30. A igreja abriga um painel de cerâmica com a pintura da imagem de Maria Imaculada, que vale ser conhecido)
Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) tombou em 2005.
- A família Jafet ao imigrar do Líbano, em 1.887, criaram a Tecelagem e Estamparia Ypiranga. Suas industrias chegaram a empregar cerca de 4,5 mil operários. Em 1.923 , inauguraram, no número 798 da R.Bom Pastor, a suntuosa residência de Basílio Jafet, uma mescla de estilos oriental, clássico e barroco, que ficou conhecida como Palácio dos Cedros – referencia ao jardim que circunda a mansão, ornamentado pela vegetação típica de seu país. Mármores de Carrara foram trazidos da Itália para montar as escadarias. Há pisos machetados, pedras talhadas, mosaicos e uma profusão de colunas, brasões e anjos barrocos; enquanto pinturas, apliquese esculturas estão distribuídos por seus quatro andares, que abrigam 50 cômodos. Segundo o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, 72, “o quadrilátero dos Jafet é o auge da ostentação do ecletismo”. O que apesar da suntuosidade, não significa exatamente bom gosto.
Fonte> Upiranga
_________________________________________________________________
A primeira loja da 25 de Março foi aberta pelo libanês Benjamin Jafet, em 1887. Nos anos seguintes, ele trouxe para o Brasil os irmãos, Basílio, João e Nami, que compraram terras na região do Ipiranga para montar uma tecelagem. "As mulheres choravam porque era uma área muito afastada", lembra Violeta Jafet, 95 anos, filha de Basílio. "Durante muito tempo, só havia por lá o museu, o rio e um botequim." Para que seus funcionários pudessem ir trabalhar, os Jafet pediram que a companhia canadense Light and Power, concessionária dos serviços de bonde na capital, implantasse uma linha até o ainda pouco habitado e distante bairro, onde mais tarde construíram casas para seus 2 000 operários e alguns palacetes. Muitos desses imóveis permanecem nas mãos de descendentes da família Jafet, que conta atualmente com mais de 400 membros.
***************************************************************************
Conhecido principalmente pela qualidade de sua unidade de terapia intensiva e de seus tratamentos contra o câncer, o Hospital Sírio-Libanês é uma das maiores contribuições da comunidade árabe para São Paulo e para o país. Sua história, no entanto, é bastante conturbada. A construção do prédio na Bela Vista começou em 1931, dez anos depois que Adma Jafet, mulher de um rico industrial do setor têxtil, fundou a Sociedade Beneficente de Senhoras com o objetivo de arrecadar fundos para as obras. Quando estava prestes a ser inaugurado, em 1941, o edifício foi desapropriado pelo governo do Estado, que instalou ali a Escola de Cadetes de São Paulo. Ela só desocupou o imóvel em 1959, quando finalmente o hospital pôde funcionar. Até hoje, a Sociedade Beneficente de Senhoras – cuja presidente é uma das filhas de Adma, Violeta Jafet, de 95 anos – cuida da administração do complexo.
********************************************************************
Alfredo volpi nasceu em lucca, itália, a 14 de abril de 1896. em 1897, a família volpi emigra para são paulo e se estabelece na região do ipiranga, com um pequeno comércio. destino comum aos filhos de imigrantes italianos, volpi inicia-se em trabalhos artesanais e, em 1911, torna-se pr decorador. talvez daí decorra o gosto pelo trabalho contínuo e gradual da sua linguagem estética, próprio da valorização de um “saber fazer”.
Até os anos 30, volpi elabora sua técnica e, principalmente, a partir da década de 1930, emerge um trabalho mais consciente, utilizando-se das cores para a construção de um equilíbrio muito próprio. por esses tempos, volpi aproxima-se de artistas como fúlvio pennachi e francisco rebolo gonsales, integrando o grupo santa helena. a denominação do grupo, e a inserção de volpi nele, é oriunda mais de uma proximidade física dos pres (que pintavam em uma sala do edifício santa helena) e da sua origem comum do que de uma identificação estética. volpi destoava do grupo especialmente por não ser um pr conservador.
Em 1938, volpi conhece o pr italiano ernesto de fiori. o encontro seria muito frutífero para ambos, e se deu numa época muito oportuna para volpi, que enveredava para um caminho de maior liberdade estética.
Um acontecimento fundamental para a evolução de volpi foi a sua “estada” em itanhaém, entre 1939 e 1941. sua esposa teve problemas de saúde e mudou-se para o litoral, a fim de se tratar. o artista a acompanhou, retornando a são paulo apenas nos finais de semana, em que procurava vender suas obras. a gravidade da doença de judite volpi envolveu o artista em questionamentos que o fizeram rever sua obra e suas concepções, liberando um potencial criativo latente, ao qual volpi finalmente conseguiria dar vazão. a tensão própria de situações-limite possibilitou para volpi uma liberdade gestual que imprimiria uma nova dinâmica à sua obra. a série de marinhas que volpi pinta a partir dessa época evidenciam uma obra muito própria que se desenvolveria gradualmente até atingir um ápice abstrato em que as composições eram compreendidas em termos de cores, linhas e formas.
Cabe ressaltar que volpi recusava teorizações estéreis, mas estava sempre muito bem informado das correntes artísticas do seu tempo, embora não se filiasse explicitamente a nenhuma delas, já que sua trajetória era extremamente pessoal. esse é um dos pontos que fazem dele um grande pr: volpi é moderno e atual sem se importar com rótulos artificiais. a diferença é que ele não precisava ser moderno ou popular; simplesmente era.
*******************************************************************
A história de um bairro chamado Ipiranga
Trânsito congestionado a qualquer hora do dia nos complexos viários Escola de Engenharia Mackenzie e Maria Maluf, que inclui as avenidas do Estado, Juntas Provisórias, Tancredo Neves, Bandeirantes, Ricardo Jafet e as vias Anchieta e Imigrantes. As intermináveis obras do fura-fila. A maior favela (a de Heliópolis) com quase 100 mil habitantes. Três distritos policiais.
Dois hospitais públicos (Ipiranga e Heliópolis) e mais quatro particulares. Seis hipermercados, 28 linhas de ônibus (inclusive intermunicipais), seis núcleos comerciais espalhados pelos 34 subdistritos curiosamente chamados de vilas e jardins, dois shoppings centers, sede de cinco instituições de ensino superior, indústrias, bancos, igrejas...
Para quem chega ao Ipiranga neste dezembro de 2000 é difícil se transportar para o
século XVI e recontar a história da terra dos índios guaianazes. Para quem, de algum modo, participa do dia-a-dia de seus quase um milhão de habitantes é estranho ir mais longe do que o célebre Grito da Independência e imaginar o bairro como um descampado sem fim...
Até para os estudiosos é impossível voltar no tempo e reconstruir a história com perfeição.
Por falta de documentos, registros, eles próprios têm versões diferentes. Há quem diga que o bairro não é quatrocentão. Outros dizem que é ainda mais idoso. E até mesmo sobre o século XIX há controvérsias. Surgem ao célebre quadro de Pedro Américo, dizendo que a reprodução não foi fiel ao verdadeiro Grito da Independência. Há também muita poesia sobre o romance de dona Domitila, a Marquesa de Santos, com Dom Pedro I nas terras da então Chácara do Ipiranga que pertencia ao pai da Marquesa.
Como se vê, a história do bairro se confunde com a própria História do Brasil e, principalmente, com a História do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, mundialmente conhecido como Museu do Ipiranga.
De todas as polêmicas a mais singela diz respeito à origem do nome Ipiranga.
Segundo Martius, no tratado clássico sobre termos brasílicos, a denominação deriva da contração de duas palavras tupis que significa “água vermelha”. Com o dicionário de João Mendes, há outra interpretação: “leito desigual e empinado”.
Diante de tantas controvérsias, o memorialista do bairro, Renato Ambrogi, autor do livro Relatos Históricos do Ipiranga, cita (p.8) que, ao consultar as Atas da Vila de São Paulo, a primeira citação aos caminhos do Ireiripiranga é de 1584. À época, os portugueses não haviam assimilado o linguajar dos índios guaianazes, primeiros habitantes do lugar e pronunciavam o nome, quase sempre associado ao rio ou ao caminho que levava ao Litoral, de diversas maneiras – Piranga, Hiporanga, Ibipiranga, Opiranga e Ireiripiranga.
No início do século XVI, o Ipiranga era habitado pelos índios guaianazes que viviam da caça e da pesca. Por toda a região, havia mato e cerrado rasteiro. As terras eram ruins para plantação. Só nas regiões ribeirinhas é que se fazia boa colheita (...)Eram muito imprecisos os limites da localidade, conhecida apenas uma paragem para o Caminho do Mar”. Naquela época, já existiam enchentes. Porém, para várias tribos acostumadas a usar canoa, as inundações não causavam nenhum transtorno. Só quando vieram os brancos percorrendo a região com cavalos, o Tamanduateí passou a ser um grave problema. Quando chovia, não era possível a passagem e a prosseguir viagem. Eram obrigados a esperar as águas baixarem .
Em histórico do bairro publicado pelo jornal Gazeta do Ipiranga, em 27 de setembro de 1984, a arquiteta da Divisão de Iconografia e Museus da Secretaria Municipal de Cultura, Maria Cecília Coelho, confirmou a versão de Ambrogi sobre as paragens do Ipiranga no século XVI.
Ressaltou que a região é hoje uma parte muito reduzida daquela original. Tudo era muito diferente. O atual Rio Água Funda era denominado de Riacho do Ipiranga e foi ele quem deu nome à região. Os documentos mostram que toda área delimitada por esse rio até a divisa com São Bernardo pertencia ao Ipiranga. A rua Domingos de Moraes (antes Estrada do Carro), Vila Mariana, Cambuci. Tudo era parte de uma mesma região.
Reafirmou que o bairro por muitos anos, talvez séculos, foi considerado apenas uma paragem do Caminho do Mar. Por essas terras passavam tropeiros, viajantes que aqui pousavam, para prosseguir viagem no dia seguinte. Já na segunda metade do século XVI a região era citada como lugar de muitas chácaras e fazendolas, onde se oferecia pouso para viajantes. Os povoadores pioneiros, por não disporem de bons caminhos que os levassem ao centro da cidade e também porque os índios hostís poderiam surpreendê-los de tocaia, só saíam para outros locais quando realmente era necessário.
O Ipiranga é um afluente do rio Tamanduateí, pela margem esquerda do município de São Paulo. Está aproximadamente a seis quilômetros da praça da Sé, considerada o marco zero da cidade. Até o início de sua área, limita-se com o bairro do Cambuci.
Atualmente, a Administração Regional do Ipiranga tem a seguinte delimitação: ao Norte, tem como limite as administrações regionais da Sé e Moóca; São Bernardo ao Sul; São Caetano ao leste e Vila Mariana ao oeste. Sua rede hidrográfica é ampla: Rio Tamanduateí, Riacho do Ipiranga, córregos como Jaboticabal, Cacareco, Capão do Rego e Moinho Velho.
Uma lenta evolução Nos séculos XVI, XVII e XVIII, o Ipiranga era uma região obscura entre o Cambuci e São Bernardo da Borda do Campo.
Conhecida apenas como uma paragem, não progrediu nesse período porque a população
era pequena e tinha muitas dificuldades para chegar ao centro comercial do Páteo do Colégio.
No início do século XIX, três grandes propriedades compunham a essência da região. A sesmaria Guarapuava (que abrange o Bosque da Saúde, parte do Jabaquara até os terrenos próximos ao atual Parque da Independência, numa área compreendida entre o Riacho Ipiranga e o antigo Caminho do Mar); a Chácara da Glória passou em 1824 para o tesouro federal, sendo utilizada pelo Seminário das Educandas da Glória e depois foi loteado para núcleos coloniais, correspondendo ao que seria hoje a Vila Mariana, Aclimação e Cambuci; e a terceira e última propriedade era a Chácara Ipiranga que pertencia ao Visconde João de Castro Canto e Mello, pai da Marquesa de Santos.
Essa era a área mais fértil, compreendendo a Estrada de Santos, Rio Tamanduateí e o Córrego do Moinho Velho. Embora fosse a menor em extensão, ficou conhecida por ser a
mais bem equipada para a produção, possuindo olaria e, mais no final do século, plantações de uvas e um ramal da estrada de ferro.
No decorrer do século XIX, inúmeras propriedades foram se instalando nessas terras,
áreas que tinham como marcos importantes o Caminho do Mar (ou antigo Caminho para Santos) e a colina próxima à ponte do Ipiranga por ter sido o local onde transcorreu o episódio da proclamação da independência em 7 de setembro de 1822.
Na mesma edição, arquiteta Maria Cecília, da Divisão Municipal de Iconografias e Museu, explicou: No fim do século XIX, essas grandes chácaras começaram a ser loteadas. A família Klabin, proprietária de grande parcela das ações do Banco União, ficou com uma boa parte das terras. Esse casal tinha duas filhas, uma era esposa de Lasar Segall e a outra do arquiteto Gregóryo Vearchawsky. Agora, a Chácara do Ipiranga foi adquirida por várias pessoas. Entre elas, o engenheiro Luiz Pucci que construiu o Museu Paulista. A Chácara da Glória ficou com o bispo Dom Matheus de Abreu Pereira, conde Vicente de Azevedo e Antônio de Moraes. Tempos depois (início do século XX) o conde José Vicente de Azevedo doou parte de suas terras para instituições religiosas e assistenciais. Daí, a Avenida Nazaré ser caracterizada por casas de assistência como creches, escolas e a Clínica Infantil do Ipiranga. E a sesmaria Guarapuava ficou com a família Fagundes Mariano.
A região permaneceu em estado de estagnação até 1890, quando a Câmara Municipal de
São Paulo loteou as chácaras existentes que ainda continuaram em atividade durante dezenas de anos. Em 27 de dezembro de 1918, conforme a lei número 1.631, o bairro foi elevado a categoria de Distrito de Paz, datando dessa época, os primeiros progressos verificados em seus 15,44 quilômetros de área distrital. De paragem a bairro suburbano, visto de um modo geral, até a instalação dos bondes elétricos que começaram a funcionar em 1900, a região ainda em fins séculos XIX era citada como lugar ermo e solitário.
Foram doze as primeiras ruas que ganharam nome. De acordo com a planta de loteamento, das quais somente uma não preserva sua primitiva denominação, todas são ligadas à Independência, e aos anseios republicanos. São as seguintes: Rua do Fico, do Grito, 1822, Cisplatina, Municipalidades, Juntas Provisórias, Gonçalves Ledo, Monumento, Guarda de Honra, Independência (subdistrito do Cambuci), Manifesto e Estrada do Ipiranga (atual rua Ouvidor Portugal). A partir dessa época, mesmo perdido entre pontos importantes da cidade, o Ipiranga foi se desenvolvendo e, para isso, muito contribuiu o fato de estar justamente entre a Capital e a saída para o Porto de Santos, através do Caminho do Mar. Inúmeras foram as iniciativas para se marcar o local da Independência. Mas, apenas em 1883, com início do projeto e da construção do monumento, hoje ocupado pelo Museu Paulista, - e finalmente com a construção do atual Parque da Independência - é que o bairro passou a ter uma ocupação com características urbanas. Pretendia-se que a grandiosidade paisagística do Parque e a abertura da atual avenida Dom Pedro I ocasionasse uma ocupação semelhante a que existia na Avenida Paulista, caracterizada pela classe emergente, industrial, que agora se firmava no Ipiranga.
A partir daí, a região foi deixando de ser apenas o Berço da Independência do Brasil e passou a acompanhar o crescimento da cidade, recebendo levas de imigrantes italianos (colônia que iniciou a urbanização), portugueses, espanhóis, árabes, entre outros, durante a primeira década do século XX.
O bairro operário
Por apresentar uma topografia irregular, o solo ipiranguista, ao contrário de outros locais, nunca se prestou à lavoura. Na verdade, a ocupação só deslanchou quando a argila desencadeou a primeira indústria lucrativa da região, no começo do século XX, época em que o crescimento demográfico da Capital já acarretava sérios problemas habitacionais. Em seu livro Relatos Históricos do Ipiranga, Ambrogi registra:
De 30 mil que eram os paulistanos em 1870, a população somava quase 240 mil em 1900, devido ao acelerado desenvolvimento demográfico que já começava a criar problemas habitacionais. Foi justamente nesse período que os tijolos e telhas passaram a ser considerados produtos de primeira necessidade, valorizando as indústrias que se ocupavam em reproduzir esse material. A argila, até então sempre relegada ao segundo plano, passou a figurar entre as principais matérias primas.
.
A primeira indústria da região foi a “Irmãos Falchi”. Segundo informações do escritor, dispunha de um motor de 40 cavalos, dois amassadores de argila e uma máquina capaz de produzir telhas. Em 1905, surge o outro concorrente no ramo cerâmico, “Sacoman Frères”, e logo depois a “Cerâmica Vila Prudente” – todas incluídas entre as cinco maiores indústrias de cerâmica do Estado em fins da primeira década.
Passou a desenvolver ainda a indústria têxtil. Em julho de 1907, surgiu a “Linhas Corrente” junto com a Estamparia Ipiranga e a fábrica de ferro esmaltado “Silex”. À essa época, já eram 18 fábricas empregando 6.296 operários; em 1913, já somavam 49, empregando 16.317 homens. O Ipiranga cresceu no embalo da industrialização. Residências, fábricas e as suntuosas mansões dos empresários (como as do Jafet, na Rua Bom Pastor) tomaram conta da região. Para movimentar, as serrarias, tecelagens e laminações, os bondes e trens despejavam diariamente levas e levas de operários. Eles vinham de diversos pontos da cidade. Muitas vezes, gastavam, no mínimo, duas horas para chegarem ao trabalho.
Os trilhos para a passagem dos bondes elétricos foram assentados em 1900. No início de suas operações, convergiam para o centro da cidade e algumas linhas cruzavam um triângulo compreendido entre as ruas Direita, XV de Novembro e São Bento.
O bonde elétrico, que esteve em atividade durante 67 anos, foi o precursor do transporte de massa. Desde a inauguração da primeira linha em 1900, o Ipiranga e arredores ganharam outro aspecto com a construção de novas casas, instalação de indústrias e aumento populacional. O bairro, em 1920, devido ao tráfego, acusou uma população de 12.064 habitantes, saltando para 40.825 em 1934, ocasião em que os ônibus eram ainda escassos e precários, sem conforto e também mais caros e, por isso, menos usados pela população.
Para o professor José Sebastião Witter, o Ipiranga é um bairro que merece muitas teses acadêmicas. Como professor de História em início de carreira, três décadas antes de se tornar diretor do Museu, Witter pôde constatar o fascínio que o bairro sempre exerceu nos próprios moradores. As freqüentes visitas aos monumentos históricos, acompanhando alunos do ensino fundamental e médio, fez com que aprendesse a admirar “como essa gente pacata” soube trabalhar as mudanças e principalmente como soube resistir a elas, quando necessário, e preservar a História “com H maiúsculo”.
“O Ipiranga é uma cidade dentro da metrópole paulistana”. A afirmação agora é de outro professor, Osmar Stolagli, diretor geral do Centro Comunitário Assunção, mais conhecido como UniFai, que reside no bairro desde que nasceu em 1933.
“Sou testemunha ocular da História” – brinca o professor Osmar. Ele se recorda das grandes enchentes da década de 40 na “Ilha do Sapo”, trecho compreendido entre os rios Tamanduateí e Ipiranga que transbordavam com freqüência. Muitas vezes, não precisava sequer chover no bairro. “É que dava aquelas pancadas de chuva na cabeceira dos rios, lá pelos lados de São Bernardo, e as águas barrentas vinham fazer estragos aqui em nossas casas” – esclarece o professor. O que valia nessas horas era a solidariedade dos amigos. Todos se ajudavam. Quando havia prenúncio de chuva, os moradores começavam espontaneamente o mutirão pelas casas mais próximas ao leito dos rios. Iam subindo os móveis, colocando as comportas. Depois do aguaceiro, o mutirão era para lavar a rua e contar as crianças, em primeiro, e os prejuízos depois.
“Era muito bonito ver aquela gente pacata, quase toda formada por imigrantes ou descendentes, enfrentando os desafios do destino. Era uma gente de princípios e que também sabia se divertir”.
Além das conversas cumpridas, do princípio de noite, com as cadeiras nas calçadas, divertiam-se a passear pelos arredores do Museu do Ipiranga. “Os jardins franceses eram o lugar onde havia o footing das jovens, enquanto os rapazes as esperavam em pontos estratégicos para lançar-lhes um olhar, duas ou três palavras se tanto” – conta o professor em tom de confidência.
“Muitos casamentos nasceram aí”.
Nos fins de semana, as missas na Igreja São José, fundada em 1919 pelo padre Arnaldo
Dantas, eram muito concorridas. E os cinemas eram a coqueluche dos anos 50. Havia vários, onze ao todo.
Outro antigo morador, Natal Saliba, que também nasceu e viveu seus 76 anos no bairro, relaciona os cinemas que conseguiram ficar mais tempo em atividade: Dom Pedro I, Sammarone, Paroquial e o Ipiranga Palácio, esses dois últimos pertencentes aos padres do Sion. Com saudade, recorda: “Mansueto de Gregório era gerente vitalício do Cine Ipiranga Palácio. Era uma pessoa muito dinâmica e procurava apresentar bons espetáculos. Lembro que em 1942, a seu convite, o cantor Francisco Alves, o famoso Chico Viola, veio cantar no bairro. Foi um espetáculo inesquecível.Depois ele trouxe a beldade da época, a atriz Tônia Carrero. Uma maravilha!”.
Mas o caráter de bairro histórico sempre persistiu – e, segundo o professor Witter, persistirá sempre. Em artigo publicado pelo Diário do Comércio, de São Paulo, em 21 de setembro de 1998, o professor, que é de Guararema.
Tenho dito com muita freqüência e repetido à exaustão que dirigir o Museu é um privilégio.
E esse privilégio sinto também por ter passado a conviver com o dia-a-dia do bairro.
Ele é muito especial, com muita história e um sem número de estórias de seus moradores que gostam de viver neste espaço urbano tão especial da grande metrópole.
O Ipiranga é, acima de tudo, um espaço onde nossa independência foi proclamada. Ali, nas colinas do Ipiranga, o Museu-monumento preserva a nossa memória e é, ao mesmo tempo, um espaço de reflexão. É um referencial significativo de nossas origens enquanto nação e um marco de nossa cidade. E é, certamente, um patrimônio da humanidade.
O Museu, com seu acervo precioso, órgão de integração da Universidade de São Paulo, é um dos marcos do Ipiranga, sem dúvida, por sua monumentalidade. Entretanto, não se pode esquecer o papel que vem exercendo na região as demais universidades, a Unesp, a São Marcos, a São Camilo, a UniFai. E também as escolas de primeiro e segundo graus que fazem o Ipiranga um universo especial para formação de seus cidadãos.
Tenho repetido muitas vezes e agora insisto em dizer que o nosso Ipiranga é uma verdadeira cidade educativa. Essa “cidade” tem ainda a emoldurá-la o Parque da Independência e a Avenida Dom Pedro I. E não se pode esquecer de dizer que é um bairro com infraestrutura da melhor qualidade em todas as áreas de atendimento ao cidadão. Acima de tudo, é um lugar onde se valorizam as relações humanas e onde o forasteiro, como eu, pode ser recebido de braços abertos e, se sentir, de coração um ipiranguista.
Independência ou morte
E aqui retornamos a peculiar história do Museu Paulista.
Desde os primeiros projetos para a sua construção – ainda sob a égide do 7 de setembro de 1822 – até a efetiva consolidação, a partir dos anos 20, a obra deu origem a urbanização de todo um bairro (hoje, com população equivalente a 700 mil pessoas em sua área central) que, em reconhecimento, gerou o nome com que a instituição é conhecida internacionalmente: Museu do Ipiranga. A partir desta constatação, fica intrínseco que, muito mais do que à USP, o Museu pertence à comunidade e à Pátria, pois o cerca um sentimento de brasilidade e conquista da soberania nacional.
Um mergulho em determinado momento de sua existência (quando após um período de
abandono nos anos 70, recupera sua projeção nacional e a função de estar junto às forças vivas da comunidade) é certamente como jogar luzes para aclarar os caminhos da memória e da identidade nacional. No entender de Elias (1998), o Museu do Ipiranga “é uma das poucas instituições e, certamente a mais importante, voltadas à celebração da emancipação política do Brasil e à reverência das personalidades envolvidas no acontecimento”.
Sem jamais ter sido objeto sistemático de investigação, o Museu reconstrói aquele momento consagrado pelo grito de “Independência ou Morte”, propõe uma certa leitura do nosso passado e ousa tramar estratégias para enfrentar o presente e o futuro. Até o momento, poucos foram os trabalhos que extrapolaram a história do Museu, procurando dimensioná-lo junto à sua comunidade e à sua produção científica. É exatamente isso que este trabalho se propõe a resgatar, com ênfase nos processos comunicacionais que deram vida e luz à instituição.
Nesta perspectiva Elias cita Willi Bolle – “preservar pressupõe um projeto de construção do presente” – e distingue as particularidades que ocorrem nos museus de História, como é o caso do Museu Paulista.
O acervo construído encontra-se inteiramente ligado aos eventos marcantes ou tido como fundamentais pelos seus criadores, ou organizadores, o que orienta a memória dos acontecimentos do passado. Vale dizer, os museus alimentam os símbolos nacionais, produzindo uma espécie de ritualismo cívico. A memória museológica construída desenvolve, pois, a vocação para fixar um certo tipo de passado, que supõe a rejeição de outros registros (...) Desse modo, os museus conectam-se, imediatamente, a um olhar sobre o passado e provocam a exaltação de personalidades, acontecimentos e realizações.
.
Na mesma linha de pensamento, recorre ainda ao historiador José Luiz Werneck da Silva que, ao analisar o Museu da República no imaginário histórico nacional, mostra que o acervo está intimamente ligado ao populismo, principalmente à figura de Getúlio Vargas.
A mesma utilização populista ocorreu, durante o regime militar, no Museu Paulista.
No entanto, não foi localizada nos arquivos do próprio Museu qualquer referência sobre o período em que a arquitetura de seu prédio serviu de palco para o Espetáculo de Luz e Som, que fazia a apologia e a divulgação do regime militar no início dos anos 70. Este episódio pode ser visto como um divisor de águas da História recente da Casa, pois precipita, consciente ou inconscientemente, o Museu num período de abandono e ostracismo, desvinculado de todo e qualquer laço comunitário e a míngua da produção científica e acadêmica. A este momento caótico, de utilização indevida, a proposta do trabalho é chegar ao Museu que enfrenta o desafio do novo milênio, com uma mulher a ocupar pela primeira vez a sua direção, a historiadora ipiranguista Raquel Glezer. Como um dos pontos mais conhecidos da cidade, dono de um notável acervo, admirado em todo o mundo, o Museu possui uma ampla programação que pretende aliar, história, ciência e lazer.
Um estágio de luz que só foi possível a partir da determinação de um homem, o então
diretor José Sebastião Witter, que tomou a frente à hercúlea tarefa de reconstruir a história do Museu do Ipiranga quando decidiu olhar com mais cuidado o seu grande objeto de exposição e, talvez, a peça mais preciosa de seu acervo: o edifício do Museu que, segundo suas próprias palavras, “é o continente que abriga todo um conteúdo museológico de raro valor.
************************************************************************